3.09.2022

O voto feminista e o machismo político

 Antonio Carlos Prado e Fernando Lavieri

Revista ISTOÉ

No Dia Internacional da Mulher pode-se comemorar 90 anos do voto feminino no País. E ficar alerta: os partidos continuam machistas e a representatividade política não deve ser um privilégio masculino

 (Crédito: Arquivo / Agência O Globo)

RIO DE JANEIRO, 1933 

Primeiro ano em que as mulheres votaram:

 conquista importante, mas longe do sufrágio universal 

Na próxima terça-feira, 8 de março, comemora-se o Dia Internacional da Mulher, instituído oficialmente pela ONU em 1975, mas cujas origens remontam a meados do século 19, quando movimentos femininos (alguns já feministas) tomaram as ruas dos EUA e da Europa exigindo melhores condições sociais para viver, garantia dos direitos civis e paridade salarial com os homens. Em Nova York, uma greve de tecelãs acabou criminosamente reprimida em 1857: cerca de 130 trabalhadoras viram-se trancadas em uma fábrica e morreram queimadas em mãos do aparato masculino do Estado, que lhes ateou fogo. Era 8 de março. Agora, no Brasil, no Dia Internacional da Mulher de 2022 pode-se festejar o aniversário de uma grande conquista feminina (o direito ao volto) e deve-se insistir em uma reivindicação (a plena representatividade política) que, muito em breve, com certeza também será alcançada.

 (Crédito:Divulgação)

GOVERNO PROVISÓRIO 

Getúlio Vargas (ao centro) com líderes da revolução de 1930:

 instrumentalização do voto feminino 

Vamos, em primeiro lugar, à conquista: esse ano completaram-se nove décadas, no dia 24 de fevereiro, de instauração do voto feminino no País, juntamente com o primeiro Código Eleitoral. Consolidou-se uma vitória das mulheres, em 1932, porque a elas interessava votar, e foi também uma vitória do governo provisório de Getúlio Vargas que politicamente usou a situação contra oligarcas que pretendiam a manutenção da chamada República Velha, essencialmente agrária e com voto cem por cento de cabresto – Getúlio só se enganou ao julgar conservador o voto feminino porque, ao longo da história, tal voto tem-se mostrado bastante progressista. Deixe-se claro que Getúlio não criou o sufrágio universal: fez obrigatório o voto do homem e facultativo o da mulher que não possuísse renda. Como se obstaculizava para as mulheres o trabalho (emprego e maternidade eram incompatíveis, diziam os machistas de então), a maioria delas não foi às urnas, impedidas pelos maridos.

Se a mulher podia votar, então ela podia ser eleita, e a primeira a se eleger deputada federal à Assembleia Constituinte, de acordo com uma legislação nacional já agora existente – e, portanto, reconhecida pela também recém-criada Justiça Eleitoral -, foi a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz, em 1933. É ela a pioneira em legalidade e legitimidade, mas a questão já vinha sendo discutida em diversas partes do País – e tais debates cresciam na medida em que aumentava o número de movimentos sociais. O Brasil seguia a tendência mundial, e essa tendência apontava que, inevitavelmente, se caminharia cada vez mais, e a passos largos, rumo à industrialização. Nasciam reivindicações políticas, e lideranças femininas se colocaram na vanguarda desse processo histórico – na Nova Zelândia, primeira nação a implantar o voto feminino, em 1893, elas tiveram papel decisivo.

Também no Brasil muitas mulheres assumiram a iniciativa da luta, e o Rio Grande do Norte ganhou destaque especial. Valendo-se de uma lei específica desse estado, Celina Guimarães Vianna elegeu-se deputada por Mossoró, em 1928 – os votos que recebeu acabaram sendo considerados “inapurados”. Um ano depois, Alzira Soriano tornou-se prefeita da cidade potiguar de Lajes e fez-se, assim, a primeira alcaide do Brasil. Para algumas estudiosas do tema, ela faz parte da história; para outras, está à margem dela. Mas, sem dúvida, Alzira é um fato sociológico que denota a paixão pela vida política do País. O voto e a elegibilidade da mulher, contudo, só valeram mesmo a partir de 1932.

As legendas valorizam mais os homens na destinação de recursos para as campanhas eleitorais, em detrimento das candidatas. Isso é machismo político

Vamos, agora, à reivindicação que deve persistir no Dia Internacional da Mulher, como proposto acima nesse artigo. Somente em 1965 o voto feminino ficou em pé de igualdade com o masculino. Por ironia do cambaio caminhar político brasileiro, já estávamos na ditadura militar, a mesma ditadura que três anos depois cassaria os mandatos de cinco das seis deputadas existentes, por meio do famigerado AI-5. De lá para cá, a mulher foi cada vez mais à luta pelo bem da democracia brasileira, mas ainda é baixa a sua representatividade política. O País possui 5.570 cidades e tem 652 prefeitas. Na Câmara, nas eleições de 2020, a bancada feminina passou de 51 a 77 parlamentares (de 10% para 15% do total de cadeiras). Há uma lei que fixa que partidos têm de reservar 30% de vagas para candidatas. Ocorre, no entanto, que as legendas não liberam às mulheres os recursos necessários para elas se elegerem – ainda que exista normatização sobre o tema -, priorizando sempre os homens. É preciso exigir a mudança dessa situação de machismo político, até porque as mulheres são aproximadamente 53% do universo eleitoral brasileiro.


Há 90 anos, mulheres conquistavam direito a voto no Brasil – mas nem tanto

 Edison Veiga 

Deutsche Welle

Embora Código Eleitoral de 1932 permitisse o sufrágio feminino, na prática o exercício foi bastante precário, explicam especialistas. Até década de 60, a participação das brasileiras nas urnas se manteve pequena.

 © Pablo Valadares/

Câmara dos Deputados

Em 24 de fevereiro de 1932 o governo federal do Brasil decretou o Código Eleitoral que reconhecia um direito básico: a partir de então as mulheres brasileiras podiam votar e ser votadas.

Contudo, como ressaltam especialistas ouvidas pela DW Brasil, a legislação escondia uma pegadinha que tornava a participação maciça das mulheres nas eleições uma questão muito mais teórica do que prática. O Artigo 121 do texto dizia que "os homens maiores de 60 anos e as mulheres em qualquer idade podem isentar-se de qualquer obrigação ou serviço de natureza eleitoral".

Ou seja: o voto era permitido às mulheres, mas obrigatório apenas aos homens – desde que alfabetizados, note-se bem.

"Havia uma prestidigitação nessa lei, algo que esvaziava o potencial transformador dela", comenta a socióloga e cientista política Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "Ao estabelecer que o voto era obrigatório para os homens mas não para as mulheres, o que ocorreu foi que homens, maridos e pais, continuaram tendo a possibilidade de proibir suas mulheres de votar. E foi isso que aconteceu."

Ela reconhece que, em termos de legislação, era uma postura avançada para a época – na França, por exemplo, as mulheres puderam participar do processo legislativo pela primeira vez apenas em 1945. Mas essa não obrigatoriedade acabou acarretando em baixa adesão. Até os anos 1960, apenas 34% dos alistados para votar no Brasil eram mulheres; em 1969, 44% "Só em 1985 é que a proporção homem e mulher começa a se igualar", comenta Goulart.

Lacuna legislativa proporcionou pioneirismo

Se o direito foi garantido por lei em 1932, o curioso é que não havia nada na legislação anterior que claramente proibisse a mulher de votar. Por isso, houve ativistas feministas que buscaram participar das urnas explorando essa brecha na lei.

"Não havia na Constituição uma proibição explícita nem ao fato de as mulheres votarem, nem quanto ao direito de serem votadas", comenta a socióloga e cientista política Joyce Martins, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e autora do livro O novo jogo eleitoral brasileiro: PT e PSDB na democracia de público. "As mulheres, simplesmente, não eram mencionadas, como se fosse óbvio que política não era um assunto delas. Algumas feministas se aproveitaram disso e exigiram na Justiça o direito de votar."

Este foi o caso, por exemplo, da dentista, sufragista e poeta Isabel Dillon (1861-1920), no Rio Grande do Sul. Ela tentou se alistar eleitoralmente em 1890 e teve a solicitação rejeitada. "Na primeira República, cabia aos estados legislar em matéria eleitoral. E em 1927, Celina Guimarães [Viana (1890-1972)], professora do Rio Grande do Norte, solicitou e conseguiu seu direito a votar. Ela foi a primeira eleitora do Brasil", ressalta Martins.

"Seguindo o exemplo de Celina, outras 15 mulheres se inscreveram e votaram, mas seus votos foram considerados 'inapuráveis' pelo Senado." Por outro lado, a primeira prefeita da América do Sul, em 1929, fora Alzira Soriano (1897-1963), da cidade de Lages, também no Rio Grande do Norte, conta a socióloga.

Dificuldades de participação

A partir de 1932, mesmo com a autorização prevista em lei, não eram poucas as dificuldades para a mulher que quisesse exercer o direito ao sufrágio. A começar pelo machismo – que invariavelmente começava em casa. Era predominante o discurso de que "política não era assunto de mulher" e não poucos os homens que proibiam suas cônjuges e filhas de se envolverem no tema, e muito menos se registrarem para a participação nas urnas.

Havia outras dificuldades, conforme explica a historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques, professora da Universidade de Brasília (UnB) e autora do livro O voto feminino no Brasil: "A maior parte não votou porque o alistamento eleitoral era trabalhoso e tomava tempo." Na época, para provar que era alfabetizado, o eleitor tinha copiar um parágrafo inteiro diante de um funcionário da seção eleitoral.

"Dei-me ao trabalho de estudar os pedidos de alistamento eleitoral publicados no boletim eleitoral elaborado pela Justiça Eleitoral. Encontrei mais nomes femininos em seções de bairros de classe média na cidade do Rio de Janeiro, minha amostra", conta. "Corre na historiografia que a Liga Eleitoral Católica [organização criada na década de 1930] fez campanha em massa para o alistamento. De fato, isso procede. Daí a inferir que mulheres pobres foram induzidas a votar em candidatos ungidos pela Igreja, é extrapolação."

Martins complementa que "a maioria das mulheres não podia votar", mesmo após a lei, já que "muitas delas dependiam dos maridos e tinham inúmeros direitos não reconhecidos pela lei". "Uma grande adesão não foi estimulada. O voto das mulheres era igual ao dos idosos, voluntário. Com a diferença de que os idosos homens não precisavam da autorização de ninguém para exercer o sufrágio", contextualiza a cientista política.

 © KEYSTONE/picture alliance

Na Suíça, até 1969 as mulheres ainda marchava pelo direito a voto

Antecedentes revolucionários

Mas se foi um direito ainda não plenamente praticado, a luta feminista pela participação eleitoral já era histórica: 100 anos antes, em 1832, a educadora e poeta Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), pioneira na luta feminista, publicara o livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens.

Na obra, ela já reivindicava uma participação feminina na política. "O direito do homem e do cidadão não incluía o sexo feminino, ele era literal: a ideia de as mulheres participarem do mundo público e terem direitos políticos foi rejeitada por séculos, em todo o mundo. Nesse sentido, como pensar em democracia quando metade da humanidade não tem seus direitos questiona?", questiona Martins.

Esse movimento ganhou força nas primeiras décadas do século 20, como acrescenta Goulart. "Em 1919 foi apresentado um projeto de lei para garantir o direito ao voto às mulheres, mas acabou não sendo aprovado". No entanto, "havia um contexto de uma série de pressões do movimento feminista sobre os governos pela inclusão das mulheres".

A historiadora Marques ressalta que "não votar significava não ser ouvida, não poder se manifestar". E isso acabou mobilizando toda uma geração de mulheres sufragistas, ativistas, sobretudo nos anos 1920. No começo, eram na maior parte professoras; aos poucos, ganharam a adesão de representantes de outras profissões, como advogadas.

Havia todo um cenário que favorecia essa luta. "O aumento de mulheres trabalhando nos espaços urbanos, a mobilização das feministas e das mulheres no mundo do trabalho, reivindicando seus direitos, a organização do Estado para atender a diversas reivindicações naqueles anos", enumera Martins.

Tudo isso culminaria no Código Eleitoral de 1932. Ainda que não por completo, um avanço. "É complicado falar que o Estado 'garantiu o direito de voto às mulheres', porque direito dá autonomia e reconhece a pessoa como cidadã", ressalva Joyce Martins. "O Estado brasileiro contornou a cidadania das mulheres. Não ousou enfrentar a questão da igualdade de gênero, permitindo o voto apenas daquelas mulheres que tivessem autorização dos seus maridos."

"Que direito é esse, que eu só posso ter se outra pessoa permitir?", argumenta a socióloga. "Não houve exatamente direito ao voto, mas uma concessão, com restrições."


90 anos do sufrágio feminino no Brasil: 4 ícones da longa luta das mulheres pelo direito ao voto

 Camilla Veras Mota - @cavmota

Da BBC News Brasil em São Paulo

 CRÉDITO,ACERVO ARQUIVO NACIONAL

Participantes do II Congresso Internacional Feminista no Recreio 

dos Bandeirantes (RJ): conquista do foto teve muitas protagonistas

Estudar, trabalhar, votar, divorciar-se. As brasileiras do começo do século 19 não tinham nenhum desses direitos.

Até 1830, pra se ter ideia, a lei permitia que os maridos castigassem fisicamente as esposas, uma herança das Ordenações Filipinas, um conjunto de leis de origem espanhola adotada por Portugal e implantada no Brasil colônia.

Até 1962, as mulheres casadas precisavam de autorização formal dos maridos para trabalhar - o Código Civil de 1916 via a mulher como incapaz para realizar certas atividades.

Nas escolas, até 1854 as meninas aprendiam corte, costura e outras "prendas domésticas", enquanto aos meninos se ensinava ciências, geometria e operações mais avançadas de matemática. Depois que o currículo foi unificado no ensino básico, ainda foram necessárias várias décadas até que as mulheres tivessem acesso mais amplo às universidades, algo que só ocorreu depois de 1930.

O direito de votar veio em 1932 - com a promulgação do decreto nº 21.076 no dia 24 de fevereiro, há exatos 90 anos -, como mais um capítulo de uma história longa, que vai muito além do acesso às urnas.

Conheça, a seguir, 4 mulheres protagonistas desse processo.

Nísia Floresta: o acesso à educação

Uma das precursoras dos movimentos pela conquista dos direitos das mulheres no Brasil viveu um século antes da promulgação do voto feminino.

Dionísia de Faria Rocha, que se tornaria conhecida pelo pseudônimo Nísia Floresta Brasileira Augusta, nasceu em Papari, no interior do Rio Grande do Norte, em 1810.

Numa época em que a vida das mulheres estava circunscrita basicamente à esfera doméstica, como esposas e mães, Nísia foi um ponto fora da curva. Foi do Rio Grande do Norte para Pernambuco, para o Rio Grande do Sul, para o Rio de Janeiro.

Viveu anos na Europa, onde transitava por círculos de intelectuais com nomes como Almeida Garret, Alexandre Herculano, Alexandre Dumas, Victor Hugo e Amandine Dupin - que se apresentava como George Sand, pseudônimo masculino que usava para assinar seus livros, algo que não era incomum naquela época.

Teve 15 livros publicados e escreveu uma tradução livre da obra Vindication of the Rights of Woman, da escritora inglesa Mary Wollstonecraft, intitulada Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens.

Vanguardista, Wollstonecraft chegou a publicar um livro em resposta aos escritos do filósofo Jean Jacques Rousseau, que afirmava, em Émile, ou da Educação, que a mulher, por ser intelectualmente inferior ao homem, deveria receber uma educação superficial, com ênfase maior na educação moral.

 CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Nísia Floresta é uma das precursoras dos movimentos de lutas por direitos das mulheres

Ainda que não repetisse o discurso de rompimento da intelectual inglesa, Nísia defendia que as mulheres tivessem acesso à mesma educação que os homens.

Foi professora e fundou, em 1838, no Rio de Janeiro, um colégio para meninas com um currículo que ia bem além das aulas de corte, costura e boas maneiras previstas na lei. O programa do Colégio Augusto incluía latim, francês, italiano e inglês - tanto gramática quanto literatura -, geografia e história.

Apesar de não ter eliminado as aulas de "prendas femininas", o fato de dar às meninas instrução bem mais ampla que o comum da época fez da escola alvo de duras críticas dos jornais cariocas durante os 18 anos em que esteve em funcionamento.

Na edição de 2 de janeiro de 1847 do jornal O Mercantil, um comentário sobre os exames finais em que várias alunas haviam sido premiadas com distinção alfinetava: "trabalhos de língua não faltaram; os de agulha ficaram no escuro. Os maridos precisam de mulher que trabalhe mais e fale menos". O trecho foi destacado pela pesquisadora Constância Lima Duarte, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em sua tese de doutorado (Nísia Floresta: Vida e Obra).

As escolas praticamente não existiam no Brasil colônia, muito menos o ensino obrigatório - a educação estava nas mãos da igreja Católica, que em seus conventos e seminários lecionava a poucos alunos.

Com a vinda da Corte para o Brasil, em 1808, o ensino começa a se difundir no país, especialmente entre as famílias ricas, que costumavam contratar professoras estrangeiras (francesas e portuguesas, principalmente) para que ensinassem aos filhos dentro de casa.

A primeira grande legislação sobre educação só é promulgada depois da independência, em 1827, durante o período do Primeiro Império. É ele que estabelece que o ensino para meninos e meninas deveria ser diferenciado.

Em matemática, por exemplo, os cursos para meninas só deveriam cobrir as quatro operações básicas - somar, subtrair, multiplicar e dividir -; enquanto aqueles para meninos incluíam geometria, frações, proporções, números decimais. A lei só unificaria os currículos quase 30 anos depois, em 1854.

A pesquisadora Mônica Karawejczyk, que há 15 anos estuda a questão do voto feminino no Brasil, pontua que Nísia não chegou a defender o voto feminino.

"Ela pedia outras coisas porque aquela era uma época em que a mulher não tinha direito a quase nada. Só em 1827 tiveram direito ao ensino primário, e mesmo assim não era igual [ao currículo masculino]."

A educação, entretanto, é um grande catalisador das transformações que aconteceriam nas décadas seguintes - e, por isso, o ativismo de Nísia e de outras mulheres nesse sentido é considerado fundamental para os avanços que vieram depois.

"No momento em que a mulher tem acesso à educação, quando começa a ler, se instruir, começa a querer outras coisas: 'Por que ele tem direito e eu não tenho?', 'Por que ele pode fazer Medicina e eu não?' A partir daí, começa a haver uma maior conscientização sobre essas questões", ressalta a pesquisadora, autora do livro Mulher Deve Votar?: o Código Eleitoral de 1932 e a Conquista do Sufrágio Feminino Através das Páginas dos Jornais Correio da Manhã e A Noite.

Leolinda de Figueiredo Daltro: o primeiro partido feminino

Uma mulher que fez muitas dessas perguntas foi a baiana Leolinda de Figueiredo Daltro, que nasceu cerca de 50 anos depois de Nísia, em 1859.

Também professora, seu principal foco no âmbito do magistério eram os indígenas. Leolinda defendia que eles fossem incorporados à sociedade brasileira por meio do ensino laico, desligado da igreja - em uma época em que praticamente todas as iniciativas nesse sentido eram dominadas por agremiações católicas, como os jesuítas.

CRÉDITO,BIBLIOTECA NACIONAL

Leolinda (ao centro) com indígenas em foto publicada no jornal O Malho

Após a proclamação da República, nos anos 1890, chegou a percorrer o interior do país por alguns anos alfabetizando comunidades indígenas.

Já separada do segundo marido e com 5 filhos - os quais sustentava com seu salário -, a própria forma como levava a vida afrontava os costumes da época. E foi experimentando as barreiras que se colocavam às mulheres pelo simples fato de serem mulheres que Leolinda se voltou para as questões de gênero.

Em setembro de 1909, foi impedida de apresentar um trabalho no primeiro Congresso Brasileiro de Geografia por ser mulher, relata a historiadora Eliane Rocha em sua tese de doutorado (Entre a Pena e a Espada - A Trajetória de Leolinda Daltro: 1859-1934). Por essa mesma razão, nunca foi nomeada oficialmente como "catequista leiga ou diretora de índios", cargos aos quais sempre almejou.

"Ela percebeu que precisaria mudar as leis para poder se inserir no espaço público", destaca Karawejczyk, que também escreveu sobre Leolinda em sua tese de doutorado (As Filhas de Eva Querem Votar: dos Primórdios da Questão à Conquista do Sufrágio Feminino no Brasil).

Assim, morando no Rio de Janeiro, em 1910 ela funda o Partido Republicano Feminino (PRF), o primeiro com esse perfil montado no Brasil - e não formalmente reconhecido como partido, já que nem direito a voto as mulheres tinham ainda (uma das demandas, claro, do PRF).

CRÉDITO,BIBLIOTECA NACIONAL

Leolinda Daltro (segunda, da esq. para dir.) em 

evento do PRF, em foto publicada no jornal O Malho

Ela e todas aquelas mulheres começaram a frequentar as sessões parlamentares, vaiavam, aplaudiam. Elas tiveram muita coragem de se colocar e exigir esses direitos políticos", diz a pesquisadora.

Por causa do estilo confrontativo, Leolinda era constantemente chamada pelos desafetos - e por boa parte da imprensa - de "Pankhurst brasileira", uma referência a Emmeline Pankhurst, uma das fundadoras do movimento sufragista na Inglaterra.

 CRÉDITO,THE WOMEN'S LIBRARY AT LSE

Emmeline Pankhurst por volta de 1910: Leolinda era frequentemente

 comparada na imprensa com sufragista inglesa

Líder do Women's Social and Political Union (União Social e Política das Mulheres, WSPU), a britânica é um dos nomes mais célebres do que ficou conhecido como suffragettes, grupo que tinha um estilo de atuação mais combativo.

Para pressionar os políticos e chamar atenção da opinião pública, as suffragettes faziam ações que iam desde interromper discursos de autoridades até acorrentar-se a portões de prédios públicos e atear fogo nas caixas de correio. 

CRÉDITO,THE WOMEN'S LIBRARY AT LSE

Evento da WSPU com lema da entidade ao fundo: 

'ações, não palavras' ('deeds not words')

No Brasil, as sufragistas do PRF eram constantemente alvo de campanhas difamatórias e ridicularizadas nos jornais, ligadas pela opinião pública ao que Karawejczyk chama de "mau feminismo" - em oposição ao "bom feminismo" que caracterizaria o grupo da geração posterior à de Leolinda, como Bertha Lutz (leia mais abaixo).

Leolinda "invadia espaços exclusivamente masculinos e expunha-se pessoalmente às críticas, sempre buscando chamar atenção para as desigualdades e injustiças", escreveu a historiadora Teresa Cristina de Novaes Marques, que há mais de 20 anos se dedica a pesquisar a história das mulheres, em um artigo na revista Gênero em 2012.

Entre os exemplos, a pesquisadora cita o episódio do Congresso Pan-Americano realizado no Rio de Janeiro em 1906, em que a ativista levou consigo um grupo de sete indígenas para assistir ao evento.

Nos anos 1920, Leolinda começa a se afastar aos poucos da vida pública. Isso não impediu, entretanto, que ela não apenas votasse nas eleições de 1933, como também se candidatasse a deputada federal - sem conseguir, contudo, se eleger.

Bertha Lutz: o primeiro congresso feminista

A bióloga Bertha Maria Júlia Lutz tinha o estilo oposto do de Leolinda. Avessa ao conflito direto, preferia os pronunciamentos públicos, cartas à imprensa e a busca de apoio de lideranças masculinas - e fazia questão de deixar clara essa distância.

A professora da Universidade de Brasília (UnB) Teresa Cristina de Novaes Marques conta que se surpreendeu quando começou a pesquisar no Arquivo Nacional os documentos da Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF) - fundada por Bertha - e não localizou uma menção a Leolinda, a não ser um pequeno obituário.

"Para mim era tão natural, eu achava que iria encontrar uma homenagem a dona Leolinda como sendo a precursora", comenta a historiadora, autora do livro Bertha Lutz.

"Mas ela [Leolinda] era uma pessoa tóxica para os propósitos da Bertha, porque atraía uma imprensa jocosa."

Essas e outras nuances têm vindo à tona nas últimas décadas, à medida que mais pesquisadores se dedicam a reconstruir a história dos movimentos de luta pelos direitos das mulheres no Brasil e lá fora.

 CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL

Bertha era filho do médico Adolfo Lutz

Nascida em 1894, Bertha entra em cena em um momento em que o movimento feminista da América Latina vinha se internacionalizando e já estava integrado às redes europeias.

Ela mesma tinha vivido em Paris, na França. Formou-se na prestigiosa Universidade Sorbonne e, em 1918, volta ao Brasil. No Rio de Janeiro, começa a trabalhar como assistente do pai, o célebre médico de ascendência suíça Adolfo Lutz, na seção de zoologia do Instituto Oswaldo Cruz.

Em um período em que a Ciência é monopolizada por homens, ela teve dificuldade para se estabelecer como cientista - um dos fatores, inclusive, que a impele para a atividade política.

"A Bertha é uma pessoa estudada, mas não é uma pessoa de dinheiro - essa ressalva é importante. Então ela precisava trabalhar. Por que ela entra no feminismo? Porque quer ter uma oportunidade de trabalho digna para sua formação", destaca Marques.

Em 1919, funda então a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher (LEIM), que tinha, entre seus objetivos, articular a aprovação do sufrágio feminino.

Em 1922, participa de uma grande conferência feminista em Baltimore, nos Estados Unidos, a Conferência Pan-Americana de Mulheres - onde se encontra com a sufragista americana Carrie Chapman Catt, com quem se correspondia por cartas e que elegeria como uma espécie de mentora.

Naquele mesmo ano, a LEIM vira a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF) e organiza o Primeiro Congresso Internacional Feminista do Brasil, no Rio de Janeiro.

"A ideia era marcar as celebrações do centenário da independência, para que elas e o evento tivessem uma projeção na imprensa", conta Marques.

 CRÉDITO,ARQUIVO NACIONAL

I Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro: evento contou com presença da sufragista americana Carrie Chapman Catt (ao centro, ao lado de Bertha Lutz)

Àquela altura, a demanda pelo voto feminino estava longe de ser um assunto novo para os políticos brasileiros. Há décadas aparecia nas discussões do Legislativo, inclusive durante a Assembleia Constituinte que redigiu a primeira Constituição da República de 1891, quando prevaleceu a posição daqueles que eram contrários ao direito do sufrágio às mulheres.

Ante as tentativas mal-sucedidas, a pressão foi crescendo com os anos. A partir da década de 1920, mulheres em diferentes regiões do país chegaram a entrar na Justiça para reivindicar o alistamento eleitoral - isso porque a legislação brasileira era ambígua, não afirmava expressamente que o voto era proibido às mulheres.

Entre elas estiveram Diva Nolf Nazário e Adalzira Bittencourt em São Paulo e Celina Guimarães e Júlia Barbosa no Rio Grande do Norte, como relata Marques no livro O Voto Feminino no Brasil, disponível para download gratuito e com mais de 100 mil acessos desde que foi publicado.

Em 1930, o Brasil assiste ao golpe de Estado que coloca Getúlio Vargas no poder. No ano seguinte, as representantes da federação conseguem uma audiência com o presidente e, finalmente, em 1932, o voto feminino aparece no decreto do novo Código Eleitoral, publicado em 24 de fevereiro.

Naquele momento ainda não houve, contudo, popularização do voto. Tanto para mulheres quanto para homens, ele era restrito aos cidadãos alfabetizados, regra que, na prática, excluía boa parte da população pobre.

Almerinda Gama: feminismo sindicalista

A datilógrafa e escritora Almerinda Farias Gama foi uma das filiadas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). Sua trajetória, contudo, foi bastante diferente da de Bertha.

"Ela veio de uma família com muitas mulheres. E mulheres que arrimam [eram o sustento da casa]. A tia era uma médica influente em Belém - então ela tinha exemplos de mulheres fortes", diz Marques, que orientou o mestrado da pesquisadora Patrícia Cibele da Silva Tenório sobre a ativista.

 CRÉDITO,BIBLIOTECA NACIONAL

Almerinda em foto publicada no jornal Fon-Fon em 1942

Almerinda faz treinamento para ser datilógrafa e se aborrece quando começa a procurar emprego e percebe que repetidamente lhe oferecem salários inferiores aos pagos aos homens.

Em busca de melhores condições, deixa o Pará e parte para o Rio de Janeiro, onde morava seu irmão. Lá, conhece o movimento feminista e se aproxima da FBPF, atraída por pautas como a de igualdade salarial defendidas pelas associadas.

Entre as muitas funções que desempenhou na federação, era o "elemento de ligação" entre a entidade e a imprensa carioca, conta a pesquisadora.

"Ela era uma pessoa dinâmica. Não só datilografava, escrevia também - já escrevia na imprensa paraense. Então ela conhecia o pessoal da imprensa."

Almerinda entrava nas redações e conversava com os jornalistas na esperança de convencê-los a publicar "notinhas" sobre a federação.

"E aquela simpatia que dona Almerinda era…as pessoas cediam", diz a historiadora.

Em paralelo, teve uma trajetória importante como sindicalista. Ajudou a fundar e foi a primeira dirigente do Sindicato dos Datilógrafos e Taquígrafos do Distrito Federal. Como líder sindical, foi a única mulher a votar como delegada eleitora na Assembleia Nacional Constituinte de 1933.

Em 1934, afasta-se da federação, entre outras razões, por achar que ela vinha perdendo seu caráter mais combativo, como relata Tenório em sua dissertação (A Vida na Ponta dos Dedos: A trajetória de Vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) - feminismo, sindicalismo e identidade política).

A partir daí, segue trabalhando como datilógrafa e passa a atuar cada vez mais próximo dos sindicatos e de um núcleo do movimento negro em Madureira, no subúrbio do Rio.

Perto dos 50 anos, Almerinda consegue finalmente erguer sua casa própria, no bairro do Méier, também no subúrbio do Rio - um espaço que acabou usando para acolher muitos migrantes e quem precisasse de "pouso" no Rio de Janeiro.

"Muita gente passou pela casa da dona Almerinda, que era uma casa de portas abertas", destaca Marques.

"A Bertha era uma pessoa que fazia política pelos canais tradicionais - escrevia, se manifestava, pedia audiência. A dona Almerinda fazia política com suas escolhas pessoais."


O que é o Dia Internacional das Mulheres e como começou a ser comemorado?

 BBC Brasil 

Celebrações em Chandigarh, na Índia, em 8 de março de 2021

Você deve estar vendo o Dia Internacional das Mulheres sendo mencionado na imprensa ou ouvindo comentários sobre o assunto.

Mas para que serve esta data? Quando é? É uma celebração ou um protesto? Existe algo equivalente como um Dia Internacional dos Homens? E que eventos vão acontecer neste ano?

Por mais de um século, o dia 8 de março é identificado ao redor mundo como uma data especial para as mulheres.

A seguir, explicamos para você por quê.

1. Como começou? 

CRÉDITO,CORBIS / HULTON DEUTSCH

Clara Zetkin sugeriu a criação do Dia Internacional das Mulheres em 1910

O Dia Internacional das Mulheres teve origem no movimento operário e se tornou um evento anual reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Suas sementes foram plantadas em 1908, quando 15 mil mulheres marcharam pela cidade de Nova York exigindo a redução das jornadas de trabalho, salários melhores e direito ao voto. Um ano depois, o Partido Socialista da América declarou o primeiro Dia Nacional das Mulheres.

A proposta de tornar a data internacional veio de uma mulher chamada Clara Zetkin, ativista comunista e defensora dos direitos das mulheres.

Ela deu a ideia em 1910 durante uma Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague. Havia 100 mulheres, de 17 países, presentes, e elas concordaram com a sugestão dela por unanimidade.

A data foi celebrada pela primeira vez em 1911, na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça. E seu centenário foi comemorado em 2011 — então, neste ano, estamos tecnicamente comemorando o 111º Dia Internacional das Mulheres.

Mas o Dia Internacional das Mulheres só foi oficializado em 1975, quando a ONU começou a comemorar a data.

E se tornou uma ocasião para celebrar os avanços das mulheres na sociedade, na política e na economia, enquanto suas raízes políticas significam que greves e protestos são organizados para aumentar a conscientização em relação à contínua desigualdade de gênero.

2. Por que 8 de março? 

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Evento do Dia Internacional das Mulheres em Bogotá, na Colômbia, em 2021

A proposta de Clara de criar um Dia Internacional das Mulheres não tinha uma data fixa.

A data só foi formalizada após uma greve em meio à guerra em 1917, quando as mulheres russas exigiram "pão e paz" — e quatro dias após a greve o czar foi forçado a abdicar, e o governo provisório concedeu às mulheres o direito ao voto.

A greve das mulheres começou em 23 de fevereiro, pelo calendário juliano, utilizado na Rússia na época. Este dia corresponde a 8 de março no calendário gregoriano — e é quando é comemorado hoje.

3. Por que as pessoas usam a cor roxa?

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A cor roxa é frequentemente associada à data, pois significa 'justiça e dignidade'

Roxo, verde e branco são as cores do Dia Internacional das Mulheres, de acordo com o site oficial.

"Roxo significa justiça e dignidade. Verde simboliza esperança. Branco representa pureza, embora seja um conceito controverso. As cores se originaram da União Social e Política das Mulheres (WSPU, na sigla em inglês) no Reino Unido em 1908", afirmam.

4. Existe um Dia Internacional dos Homens?

Existe, sim, 19 de novembro.

Mas a data só foi criada na década de 1990 e não é reconhecida pela ONU. É celebrada em mais de 80 países em todo o mundo, incluindo o Reino Unido.

Este dia celebra "o valor positivo que os homens trazem para o mundo, suas famílias e comunidades", de acordo com os organizadores, e visa destacar modelos positivos, aumentar a conscientização sobre o bem-estar dos homens e melhorar as relações de gênero. O tema para 2021 foi "Melhores relações entre homens e mulheres".

5. Como é comemorado o Dia Internacional das Mulheres?

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Centro de vacinação em Roma, na Itália, ofereceu mimosas às mulheres no ano passado

O Dia Internacional das Mulheres é um feriado nacional em muitos países, incluindo a Rússia, onde as vendas de flores dobram durante três a quatro dias ao redor de 8 de março.

Na China, muitas mulheres recebem meio dia de folga no 8 de março, conforme recomendado pelo Conselho de Estado.

Na Itália, o Dia Internacional das Mulheres, ou La Festa della Donna, é comemorado com a entrega de botões de mimosa. A origem desta tradição não é clara, mas acredita-se que tenha começado em Roma após a Segunda Guerra Mundial.

Nos EUA, março é o Mês da História das Mulheres. Todos os anos, um pronunciamento presidencial homenageia as conquistas das mulheres americanas.

Neste ano, as comemorações vão continuar sendo um pouco diferentes por causa da pandemia de covid-19 e eventos virtuais devem ocorrer em todo o mundo, incluindo o da ONU.

6. Qual é o tema de 2022? 

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No ano passado, Kamala Harris tomou posse como a primeira mulher, primeira negra e primeira asiático-americana vice-presidente dos EUA

A ONU anunciou que seu tema para 2022 é "Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável". Seus eventos vão reconhecer como mulheres ao redor do mundo estão respondendo às mudanças climáticas.

Mas há também outros temas. O site do Dia Internacional das Mulheres — que diz que foi criado para "fornecer uma plataforma para ajudar a gerar mudanças positivas para as mulheres" — escolheu o tema #BreakTheBias e está pedindo às pessoas que imaginem "um mundo livre de vieses, estereótipos e discriminação".

7. Por que precisamos disso?

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Grupos de mulheres no México transformaram grades

 em memorial improvisado para vítimas de feminicídio

Testemunhamos um retrocesso significativo na luta global pelos direitos das mulheres no ano passado. O ressurgimento do Talebã em agosto mudou a vida de milhões de mulheres afegãs — meninas foram banidas do ensino médio, o Ministério para Assuntos da Mulher no país foi dissolvido e muitas mulheres foram instruídas a não voltar ao trabalho.

No Reino Unido, o assassinato de Sarah Everard por um policial em serviço reacendeu os debates sobre a segurança feminina.

A pandemia de covid-19 também continua a ter impacto nos direitos das mulheres. De acordo com o Global Gender Gap Report 2021 do Fórum Econômico Mundial, o tempo necessário para acabar com a disparidade global de gênero aumentou em uma geração, de 99,5 anos para 135,6 anos.

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Mulheres saem às ruas para comemorar — e protestar

Um estudo de 2021 da ONU Mulheres com base em 13 países mostrou que quase 1 em cada 2 mulheres (45%) relatou que ela própria ou uma mulher que conhecem sofreram alguma forma de violência durante a pandemia.

Isso inclui o abuso que não é físico, sendo o abuso verbal e a negação de recursos básicos os mais comuns relatados.

Apesar das preocupações com o coronavírus, passeatas ocorreram em todo o mundo no Dia Internacional das Mulheres no ano passado.

No México, grupos de mulheres transformaram grades de metal, erguidas para proteger o Palácio Nacional, em um memorial improvisado para as vítimas de feminicídios.

Em paralelo, mulheres na Polônia realizaram protestos em todo o país após a introdução de uma proibição quase total do aborto em janeiro de 2021.

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Ativistas do direito ao aborto comemoram conquista na Colômbia em 2022

Nos últimos anos, porém, houve avanços — especialmente no que se refere à liderança feminina.

Kamala Harris se tornou a primeira mulher, a primeira negra e a primeira asiática-americana vice-presidente dos EUA em 2021.

No mesmo ano, a Tanzânia empossou sua primeira presidente mulher, Samia Suluhu Hassan, enquanto Estônia, Suécia, Samoa e Tunísia tiveram primeiras-ministras mulheres pela primeira vez na história.

Em janeiro de 2022, Xiomara Castro tomou posse como a primeira mulher presidente de Honduras.

Em 2021, a Nova Zelândia aprovou licença remunerada para mulheres (e seus parceiros) que sofreram aborto espontâneo ou em caso de natimorto. Em 2020, o Sudão criminalizou a mutilação genital feminina.

E não podemos deixar de falar no impacto da campanha #MeToo, denunciando experiências de assédio e agressão sexual. Começou em 2017, mas agora é um fenômeno global.

Em janeiro de 2022, um professor universitário no Marrocos foi condenado a dois anos de prisão por comportamento indecente, assédio sexual e violência depois que estudantes universitárias quebraram o silêncio sobre os favores sexuais que ele havia exigido em troca de boas notas — uma série de escândalos deste tipo manchou a reputação das universidades marroquinas nos últimos anos.

No ano passado, também houve avanços em relação ao aborto em vários países. Em fevereiro de 2022, a Colômbia descriminalizou o aborto nas primeiras 24 semanas de gestação.

Nos EUA, enquanto isso, os direitos ao aborto foram restringidos em alguns estados, com no Texas, que proibiu procedimentos a partir de seis semanas de gravidez.



Joana Angélica, a mártir católica que é considerada heroína da Independência

 Edison Veiga

De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil

 CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO/ ACERVO DO MUSEU PAULISTA DA USP

Retrato de Joana Angélica feito pelo artista Domenico Failutti e 

pertencente ao Museu Paulista da USP - Museu do Ipiranga

O historiador Bernardino José de Souza (1884-1949) escreveu que dos acontecimentos "tormentosos" da época, "nenhum impressionou mais fundo a alma da Bahia do que o selvagem ataque dos soldados contra o indefeso convento de Nossa Senhora da Conceição da Lapa". Foi o episódio no qual, segundo suas palavras, "morreu nobremente a primeira heroína da epopeia da Independência".

Neste trecho, do livro Heroínas Baianas, Souza referia-se à religiosa concepcionista Joana Angélica de Jesus (1761-1822). Há exatos 200 anos, entre 11h e 12h do dia 20 de fevereiro de 1822, a freira morreu, após ter sido atingida por golpe de baioneta quando tentava proteger seu convento da invasão de tropas portuguesas.

Para a historiografia, acabou sendo aclamada como uma heroína do processo que culminaria, no mesmo ano, na Independência do Brasil. Para a Igreja Católica, seu ato de bravura a torna uma mártir da fé, postulando-a à devoção dos altares.

Joana foi um dos destaques de uma exposição realizada pela Câmara dos Deputados em 2016 sob o título Mulheres Pioneiras: Elas Fizeram História. Na ocasião, foi apresentada como "um símbolo da resistência contra o autoritarismo português" já que, "em meio aos conflitos entre as milícias brasileiras pró-independência e o exército português, Joana, aos 60 anos, morreu ao receber um golpe de um soldado por resistir à invasão das tropas ao convento".

Em texto recente, o arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, cardeal Sergio da Rocha exaltou Joana Angélica como uma das "figuras marcantes do itinerário rumo à independência", segundo ele uma heroína "por integrar um outro 'exército', formado por mulheres que traziam consigo a cruz e o rosário, assassinada às portas do convento".

"O significado do seu gesto ultrapassa a atitude patriótica de enfrentamento dos soldados portugueses, pela liberdade do Brasil", pontua Rocha. "O seu martírio ocorre em defesa, não somente de um edifício religioso, mas do que ele representava: a comunidade de irmãs que lá vivia, a fé em Cristo por elas professada, a Igreja que devias ser sempre respeitada."

Para o cardeal, o episódio protagonizado por Joana "merece figurar, com maior atenção, não somente na história da Independência do Brasil, mas na história da Igreja Católica da Bahia". "Precisamos conhecer e valorizar mais Joana Angélica, bem como a história rica e plural da Bahia", acrescenta ele.

Contexto

À BBC News Brasil, o historiador Sérgio Guerra Filho, professor na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, explica que o episódio da morte de Joana Angélica insere-se no contexto anti-lusitano que havia na Bahia naquele início de século 19.

"A Independência [do Brasil] foi um ato complexo que envolveu uma série de eventos em diversas regiões do que hoje chamamos Brasil. Lutava-se contra a dominação portuguesa. No caso da Bahia, havia uma disputa pelo comando militar da região", afirma ele.

Vale ressaltar que o clima havia se complicado em decorrência do "rearranjo do Reino Unido", ou seja, da coroa portuguesa. Depois de 13 anos em que a corte havia se transferido para o Rio de Janeiro, o rei português dom João VI (1767-1826) havia retornado para Portugal no ano anterior.

 CRÉDITO,DOMINIO PÚBLICO

Pintura óleo sobre tela do século 19 retratando o assassinato de Joana Angélica

"[Muitos revoltosos] queriam que as províncias [do Brasil Colônia] mantivessem algumas autonomias que tinham conseguido a partir de 1808", acrescenta Guerra Filho.

Em solo baiano, essa situação se materializava na disputa entre "os nascidos em Portugal, interessados na retomada das prerrogativas coloniais e os nascidos na Bahia, preocupados com a manutenção das vantagens que tinham conseguido com a vinda da família real ao Brasil", diz o professor.

Entre essas vantagens, ele lista como as principais a liberdade de comércio e as "experiências de poder", ou seja, com portugueses nascidos no Brasil sendo alçados a cargos importantes.

Pesquisador do Grupo Intelectuais e Política nas Américas, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e professor do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré, o historiador Victor Missiato frisa que a região do Recôncavo Baiano era um reduto de revoltas desde o fim do século 18 — ele lembra o episódio de cunho separatista conhecido como Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates, ocorrido entre 1798 e 1799.

"Ou seja: era um local de movimentos muito radicais com algumas vertentes republicanas lutando pela a autonomia ou pela independência, dependendo do grupo", pontua ele, em conversa com a BBC News Brasil. "Havia na Bahia uma relação muito conflituosa entre portugueses e nativos, muito por conta da cobrança de impostos mas também por conta da miséria em que muitos escravos e libertos viviam numa região que estava perdendo cada vez mais força para o Rio de Janeiro."

Autor de diversos livros sobre o período, o pesquisador Paulo Rezzutti diz à reportagem que "os eventos ocorridos na Bahia no começo do ano [de 1822] são um marco do processo da independência" que "não foi somente eternizado com o grito do Ipiranga em 7 de setembro" e "estava longe de não ser um movimento popular e que só atingia o sudeste brasileiro".

O conflito

Rezzutti explica que naquele início de ano, setores populares baianos reagiram contra a nomeação de um militar português, o general Madeira de Melo, para o cargo de governador das Armas da Bahia. "Tanto a população quanto as tropas tentaram não aceitar a nomeação imposta por Lisboa", comenta. "Cidadãos notáveis tentaram impugnar a posse e o caso acabou levando a um embate entre os populares e os soldados baianos contra o general e seus comandados."

"O ponto alto da batalha em Salvador foi a tomada do Forte de São Pedro, onde o brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães, comandante nativista, acabou dominado, preso e enviado para Portugal", narra o pesquisador. "Na sequência dos combates, soldados portugueses, grande parte embriagados, perseguiram os brasileiros que escaparam do Quartel da Mouraria. Como esse ficava perto do Convento da Lapa, ele foram até o convento para verificar se os brasileiros tinham fugido para lá e se o local guardaria armas."

Alegando terem ouvido rumores, os portugueses disseram acreditar que as religiosas estivessem dando abrigo para os brasileiros. "Ela tentou impedir que os soldados entrassem no claustro, que era vetado para os homens, e acabou sendo morta com golpes de baioneta", relata o pesquisador Rezzutti.

"[A freira] agiu de maneira a resguardar a integridade das freiras, colocando-se diante dos soldados portugueses que queriam invadir a clausura, e acabou morta por eles", diz ainda o pesquisador. "A ação dela era de proteger o convento, as noviças e outras irmãs, não tinha qualquer ligação com a causa entre portugueses e brasileiros."

Mesmo assim, Rezzutti ressalta que ela "é considerada a primeira heroína da independência" e é "pouco lembrada por isso".

Narrativas da época registram que ela teria enfrentado as tropas dizendo: "Para trás, bandidos! Respeitem a casa de Deus! Recuem: só conseguirão penetrar nesta casa passando por cima do meu cadáver!" Mas hoje se acredita que esses dizeres tenham sido inventados postumamente para ilustrar o seu martírio.

Para o historiador Guerra Filho, o gesto de Joana pode ter sido imbuído de valores católicos e também de um conhecimento do contexto político. "Eu acredito que ela praticou a defesa da religião, ou seja, protegendo o claustro como um local, dentro de um convento feminino, em que homens não podem entrar. Mas não desprezo que ela tivesse também a percepção das injustiças, da opressão portuguesa, algo que era muito comum à época." 

CRÉDITO,ARQUIDIOCESE DE SÃO SALVADOR DA BAHIA

Santinhos de Madre Joana Angélica, 

distribuídos no convento da Lapa, em Salvador.

Como era uma religiosa baiana, não havia como ignorar esse contexto. "Era uma percepção daquele período: a das diferenças entre os nascidos em Portugal, os portugueses da Europa, e os portugueses nascidos no Brasil", complementa o historiador. "Nesse processo, a ação dela durante uma disputa entre soldados portugueses e soldados baianos foi incorporada pela historiografia baiana como um ato patriótico."

"Não temos como dizer com certeza o que se passava na cabeça da freira, mas é possível dizer que ela estava defendendo o claustro e, ao mesmo tempo, entendendo que os portugueses exerciam uma força de opressão colonial, uma opressão contra os baianos", avalia ele.

Missiato lembra que o fato de ela ter sido uma religiosa, "em uma sociedade hegemonicamente católica", onde "a defesa das instituições católicas sempre se fez muito presente" deu dimensões mais reluzentes ao episódio.

"E os portugueses foram extremamente violentos na entrada do convento. A morte de Joana Angélica acabou gerando uma comoção popular na Bahia", afirma ele. "Mesmo que [o episódio] tenha sido exaltado posteriormente como um caso de identificação nacional, o que ocorreu no calor do momento foi importante. Ela teve um papel importante, para a historiografia, no processo de independência."

Quem foi

Joana Angélica era de uma família de ricos aristocratas de Salvador. Conta-se que desde muito cedo manifestava inclinação pela vida religiosa e seus pais, José Tavares de Almeida e Catarina Maria da Silva, nunca se opuseram a isso — pelo contrário, apoiaram a menina.

Segundo informações da Arquidiocese de Salvador, ela foi aceita aos 20 anos como noviça no Convento Nossa Senhora da Conceição da Lapa. Tornou-se irmã consagrada no ano seguinte.

A biografia disponibilizada pela Arquidiocese ainda atesta que ela era "estimada pelos m oradores da capital baiana pelos conhecimentos que detinha". Ela foi designada abadessa — cargo máximo do convento — por duas vezes. Primeiro, de 1815 a 1817. Depois, de 1821 até seu assassinato.

Há tempos setores da Igreja defendem que Joana Angélica pode ser reconhecida como beata — e, posteriormente, como santa. Se sua morte for entendida oficialmente pelo Vaticano como um martírio em defesa da fé, nem a comprovação de milagres seria necessária.

De acordo com a Arquidiocese de Salvador, em 2001 foi solicitada "a inclusão da pesquisa de documentos comprobatórios" do martírio dela "para que se tornasse possível o processo canônico da beatificação da citada freira".

Os trabalhos consistiram de pente-finos em arquivos como o do Estado da Bahia, da Cúria Metropolitana e de conventos e mosteiros. Considerado insuficiente, o processo avançou por outros acervos. A partir de então, o dossiê passou a incluir documentos do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, do arquivo do Mosteiro da Luz de São Paulo, da Biblioteca Nacional, do Museu Histórico Nacional e do Arquivo Nacional, entre outras instituições brasileiras.

Pesquisadores também buscaram materiais em Portugal, com consultas ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, à Biblioteca Nacional e ao acervo da Universidade de Coimbra.

"Atualmente, há uma equipe escrevendo sobre a biografia dela para dar respaldo a um processo de beatificação", conta Guerra Filho.

Procurada pela reportagem, a Arquidiocese de Salvador não respondeu sobre o status atual dos trâmites que podem levar Joana Angélica à chamada "glória dos altares". A assessoria de comunicação da instituição limitou-se a informar que uma missa especial deve ser celebrada neste domingo em memória ao bicentenário do martírio dela.


História redescobre o papel de mulheres na independência

 Edison Veiga

Deutsche Welle

Leopoldina, Maria Quitéria, Maria Felipa e freira Joanna Angélica são algumas das personagens de destaque. Reconhecimento da participação feminina neste episódio ganha força no ano em que se celebra o bicentenário. 

"A participação das mulheres na independência do Brasil" foi o título do curso oferecido, de forma gratuita e on-line, no mês passado pela historiadora Giovanna Trevelin — pesquisadora ligada à Universidade Estadual de Feira de Santana e divulgadora científica.

Não se trata de um esforço isolado, esse reconhecimento do papel feminino em episódio tão importante para a história do Brasil. Mas sem dúvida algo que ganha corpo mais consistente no ano em que se celebra o bicentenário da independência.

A ressignificação da participação das mulheres vem sendo tratada em obras recentes, como o livro Sobreviventes e Guerreiras: Uma Breve História da Mulher no Brasil de 1500 a 2000, da historiadora e escritora Mary Del Priore, e a biografia D. Leopoldina – A história não contada: a mulher que arquitetou a independência do Brasil, do pesquisador e escritor Paulo Rezzutti. Além disso, cada vez mais universidade brasileiras contam com projetos de pesquisa que atentam para temas correlatos, como o Grupo Nina Simone, do qual faz parte Trevelin.

A historiadora conta que é perceptível o desconhecimento quanto às "personagens femininas que participaram de um processo tão importante para a nossa história". E isso a motivou a desenvolver o curso on-line, já que o tema a "afeta diretamente, como mulher, brasileira, historiadora e pesquisadora".

Entre todas essas pesquisas, alguns nomes em comum acabam sendo destacados. São o da nobre Leopoldina (1797-1826), que se tornaria a primeira imperatriz do Brasil, da combatente Maria Quitéria (1792-1853), da pescadora Maria Felipa (?-1873) e da freira Joanna Angélica (1761-1822).

Contudo, pesquisadores acreditam que muitas outras mulheres estiveram envolvidas nas lutas pela independência brasileira. O sumiço de seus nomes nos relatos deste episódio é resultado justamente da lógica machista de um tempo em que a atuação delas era omitida dos registros, somado a uma historiografia que as ignorava.

"É complicado falar nas principais mulheres que participaram do processo de independência porque ele não foi um processo isolado e centralizado só em uma mulher ou em um grupo de mulheres", comenta Trevelin. "Hoje, oficialmente, algumas delas têm mais destaque do que outras por conta de uma prioridade de documentação histórica e da história que se escolhe contar formalmente, que aprendemos nas escolas, e que acaba se popularizando pelas mídias como novelas e séries, por exemplo. Mas isso é uma escolha."

Rezzuti destaca que a história, durante muitos séculos, foi escrita exclusivamente por homens. "Mesmo após as mulheres terem acesso ao estudo, a maior parte delas repetiam conceitos e ideias anteriores que partiam das premissas do pensamento patriarcal. Essas coisas levaram tempo para mudar, e a história das mulheres passou a ser contada de maneira mais sistemática e intensa recentemente."

Del Priore acredita que outros nomes ainda vão ser descobertos. "A questão é que há pouquíssima documentação sobre mulheres nesse período. Sabe-se que algumas atuavam como espiãs e levando comida e bebida aos soldados do imperador, mas seus nomes não são conhecidos", ressalta ela. "Os historiadores estão exumando documentos para descobrir quem foram essas figuras."

Professora na Universidade Federal de São Paulo, a historiadora Andréa Slemian lembra que é preciso contextualizar o fenômeno dentro daquele período histórico. "O momento da independência é de ebulição política, que se deu em meio ao fim da censura régia sobre os escritos, com a proliferação de uma série de textos públicos", afirma ela. "E vemos a participação de mulheres ou pessoas que assinavam com codinomes femininos. Até porque, nesse momento em que os valores patrióticos vêm à tona, ressaltou-se o papel das mulheres na antiguidade, desde as gregas e as romanas, na luta pelos valores de suas cidades."

Segundo a pesquisadora, quando esses valores são "recuperados pela imprensa", há um incentivo ao "engajamento das mulheres na luta pela independência".

As consideradas principais

Dos nomes consagrados, todas estiveram ligadas diretamente a episódios da luta pela independência. A freira Joanna Angélica, assassinada em fevereiro de 1822, era a responsável pelo Convento da Lapa, em Salvador. "Foi a primeira mulher vítima do processo de Independência do Brasil", pontua Rezzutti.

Na ocasião, soldados portugueses queriam invadir o claustro religioso feminino em busca de munição e acreditando que ali estariam escondidos os contrários ao comando militar português. Ela enfrentou, bloqueando a entrada da casa. E foi morta com um golpe de baioneta.

Maria Quitéria, por sua vez, travestiu-se de homem para integrar as tropas brasileiras contra as portuguesas, nas batalhas ocorridas na Bahia em setembro de 1822. "Mesmo depois de ter sua verdadeira identidade revelada pelo pai, seu comandante não a dispensou, entre outras coisas porque ela atirava muito melhor que muitos outros recrutas", acrescenta Rezzutti.

Já Maria Felipa era uma negra líder comunitária, pobre e iletrada, que vivia na Ilha de Itaparica, também na Bahia. Ela teria engajado outras mulheres da ilha para lutar contra os portugueses. "Naquele contexto, elas atuavam em grupos, mas não se sabe hoje o nome delas. Muitas dessas histórias permanecem e ganham força a partir de uma tradição oral, e são de muita relevância para entendermos que outras narrativas, marginalizadas até aqui, também foram decisivas na independência do Brasil", frisa Trevelin.

"Conta-se que Felipa pedia às mulheres bonitas da ilha para que passeassem pela praia para, assim, atrair os soldados portugueses. Ela se aproveitava da aproximação dos barcos para incendiá-los", diz Del Priore.

Embora tardios, alguns reconhecimentos públicos vêm aparecendo, com essas mulheres emprestando nomes a logradouros e sendo alvo de homenagens. Professora da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, a jurista Eneida Obage de Britto Taquary lembra que Joanna Angélica, Maria Quitéria e Maria Felipa tiveram seus nomes inscritos no chamado Livro de Heróis e Heroínas da Pátria em 26 de julho de 2018, mediante lei federal.

"Há um pequeno resgate do papel dessas mulheres. E, certamente, a partir das obras que hoje têm recontado a história delas, vamos poder conhecer cada vez mais sobre a participação da mulher em vários processos importantes como foi a independência do Brasil", avalia Taquary.

Leopoldina

A participação da primeira mulher do então príncipe regente do Brasil — que ser tornaria o imperador após a independência — no processo histórico tem sido revisitada intensamente nos últimos anos. É praticamente unanimidade o reconhecimento de seu papel como artífice da independência, já suas ideias foram registradas em cartas.

Por outro lado, esse discurso acabou fazendo nascer um boato: o de que ela teria assinado um decreto de independência. Para o biógrafo Paulo Rezzutti, isso é "fake news histórica".

"Leopoldina participou de todo o processo, desde todas as questões que levaram ao Dia do Fico, do qual ela foi uma das principais articuladoras, até a sua regência, no lugar do marido, durante a qual ela enviou cartas para ele em São Paulo aconselhando-o a romper definitivamente com Portugal", ressalta ele, sobre os antecedentes do Sete de Setembro.

Ele conta que quando Pedro partiu para São Paulo, em agosto de 1822, em viagem, Leopoldina ficou como princesa regente. "Mas não com plenos poderes, como podemos ver no decreto de sua nomeação", ressalta. "Ela não podia deliberar nada sem a concordância do marido. "

"No entanto, ela presidiu o conselho de Estado convocado no Palácio de São Cristóvão a 2 de setembro de 1822, para discutir as notícias vindas de Portugal que pediam o retorno imediato do restante da família real que havia ficado no Brasil para a Europa", acrescenta. "Os despachos e as cartas produzidos durante essa reunião […] instigaram dom Pedro para que ele fizesse logo a independência, antes que fosse tarde. "

Daí para dizerem que ela teria assinado um decreto de independência, foi um pulo. "É um boato, e apenas isso", contextualiza Rezzutti. "Primeiro que o Brasil não tem uma declaração de independência, como os Estados Unidos; segundo que a ata do Conselho de Estado de 2 de setembro presidido por Leopoldina nem menciona a questão da independência, a ata é publica, pode ser consultada online no site do governo federal. Mas nada disso diminui o envolvimento de Leopoldina em todo o processo, só não há uma assinatura dela em nada mostrando que teria sido ela e não dom Pedro quem decidiu a independência."

Outras mulheres

Aos poucos, outras participações femininas também tem sido descobertas e melhor relatadas. Em suas pesquisas, a historiadora Trevelin deparou-se, por exemplo, com relatos das chamadas "mulheres de Saubara". No município baiano, mulheres de uma irmandade chamada Caretas do Mingau teriam lutado diretamente contra os portugueses.

"A história mais popular, e que ganhou força na região, é que essas mulheres se vestiam de branco e saíam às ruas para assustar os portugueses, que fugiam achando que elas eram almas penadas. E assim elas conseguiam levar comidas e armamentos para seus filhos e maridos que lutavam contra as tropas, o que justificava as panelas de mingau na cabeça", relata ela.

Contudo, Trevelin acredita que a organização teria sido anterior às lutas e elas já realizavam um cortejo tradicional com as panelas de mingau na cabeça para enaltecer a importância do alimento, base da alimentação local daqueles tempos.

"Também existem grupos, como o das Senhoras Bahianas, que peticionaram a Leopoldina em agradecimento a dom Pedro ter ficado no Brasil e reconhecendo a importância dela no processo, ou ainda o das Senhoras Paulistas, que também se dirigiram a Leopoldina durante o processo da independência", acrescenta Rezzutti.

Outra que é pouco lembrada é a pintora, escritora e historiadora inglesa Maria Graham (1785-1842), ligada à família imperial brasileira porque foi responsável pela educação de uma das filhas de Pedro I e Leopoldina. " [Ela] se destacou como a voz de uma mulher em meio a uma historiografia predominantemente masculina", analisa Trevelin.  " [A inglesa] escreveu um diário sobre o Brasil, onde contou como foi o processo de independência, escrevendo inclusive a respeito de Maria Quitéria. Assim, se consagrou como uma importante fonte a respeito da temática, com uma história narrada pela perspectiva feminina, incomum no período."


As prisioneiras que costuravam para os nazistas em Auschwitz

 Manasi Gopalakrishnan

Deutsche Welle

Novo livro conta a história de mulheres que trabalharam em um ateliê de moda no campo de extermínio, confeccionando roupas sofisticadas para a elite nazista. Com acesso privilegiado, muitas ajudaram a resistência. 

Em busca de informações sobre como viviam as mulheres na Segunda Guerra Mundial, Lucy Adlington folheava documentos de arquivo das décadas de 1930 e 1940 quando se deparou com algo que lhe chamou atenção. "Encontrei uma referência a um ateliê de moda em Auschwitz, mas havia pouquíssima informação", diz em entrevista à DW, a partir de Londres.

A autora e historiadora se dispôs, então, a procurar mais pistas sobre as antigas costureiras. No processo, encontrou histórias comoventes de resistência e sobrevivência, que reuniu no livro The dressmakers of Auschwitz (As costureiras de Auschwitz, em tradução livre), recém-publicado em inglês.

Do final dos anos 1930 ao início dos anos 1940, o ateliê funcionou sob o comando de Hedwig Höss, esposa do comandante nazista do campo de extermínio de Auschwitz, e usando prisioneiras como mão-de-obra. No local, conhecido como Obere Nähstube (oficina de costura superior, em alemão), eram elaboradas e confeccionadas roupas sofisticadas para a elite nazista.

Adlington chama isso de "horrenda anomalia", pois contrastava com as atrocidades cometidas pelos nazistas contra os 1,3 milhão de prisioneiros do campo de concentração.

Os nazistas, de acordo com Adlington, sempre entenderam o poder das roupas – dos uniformes à alta costura. Magda Goebbels, esposa do ministro da propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, não hesitava em usar criações de judeus.

"Era uma desconexão total. [As prisioneiras] vestindo trapos imundos, e essas esposas da SS [Schutzstaffel, organização paramilitar nazista] chegavam dizendo: 'Querida, faça-me um vestido novo'", conta a historiadora.

 Foto: Gila Kornfeld-Jacobs

Hunya Volkmann, uma das costureiras de Auschwitz

 que sobreviveu ao campo de extermínio

Em busca das costureiras

Inicialmente, Adlington tinha apenas uma lista dos primeiros nomes das costureiras: Irene, Renee, Bracha, Hunya e Mimi eram algumas delas. À DW, ela explica que encontrar os nomes e sobrenomes das mulheres nos registros é complicado, pois muitas usavam apelidos ou mudaram de sobrenome após se casarem. Além disso, algumas mulheres judias também adotaram nomes hebraicos após a guerra.

Em 2017, ela publicou um relato ficcional das costureiras em um romance para jovens adultos chamado The red ribbon (publicado em português como Um ateliê de sonhos). O livro conta a história de quatro jovens – Rose, Ella, Marta e Carla – que costuram roupas em um ateliê em Auschwitz como forma de sobreviver em um ambiente hostil.

"Eu não tinha informações suficientes, então imaginei como seria ser uma jovem costurando em Auschwitz para a esposa do comandante", conta. "E quando esse romance foi lançado, as pessoas começaram a entrar em contato comigo para dizer: 'Bem, na verdade, aquela era minha tia, aquela era minha mãe, aquela era minha avó'."

Ela diz ter sido atingida por uma "forte sensação de que história não se enterra; são as vidas das pessoas". A autora passou então a contactar as famílias das costureiras de Auschwitz e, em 2019, conheceu uma das sobreviventes, Bracha Kohut, de 98 anos, em São Francisco.

"Foi uma conexão incrível", diz Adlington. "Eu olhava para ela e pensava: 'Esta é a mesma mulher cujas experiências eu tenho lido sobre? Ela está aqui'. Tentava entender como ela, numa idade tão jovem, pôde suportar aquele trauma."

 Foto: Lucy Adlington

Lucy Adlington com Bracha Kohut, uma das costureiras sobreviventes de Auschwitz

Colaborando com a resistência

Para muitas presas de Auschwitz, trabalhar no ateliê de costura era mesmo uma forma de sobreviver, afirma Adlington. A chefe das costureiras, uma prisioneira que se chamava Marta, deliberadamente transformou o ateliê num refúgio.

"Ela queria salvar o máximo de mulheres que pudesse. Então, sim, elas tinham roupas limpas. Elas tinham a oportunidade de se lavar. E, conforme disse uma mulher, elas tinham um trabalho significativo", conta a autora.

"Então, em vez de serem tratadas pior que animais, como escravos que ficaram traumatizados construindo as câmaras de gás que matariam eles próprios e suas famílias, elas realmente tinham algo bonito para fazer. Acho que deve ter sido incrível para a autoestima delas."

Mas as mulheres do ateliê não estavam ali apenas fazendo lindos vestidos e ganhando tempo. Muitas ajudaram os movimentos secretos de resistência, usando suas posições relativamente privilegiadas para se comunicar com pessoas de fora do campo de concentração.

"Elas coletavam remédios e os distribuíam. Elas roubavam tudo o que podiam. E acho que a coisa mais importante é que elas mantiveram seu moral", diz a autora.

"Elas conseguiram ter acesso a jornais e ouvir rádios secretamente, e puderam dizer: 'Olhe, os aliados invadiram a França. O Dia D aconteceu, aguente firme'."

Marta, a chefe das costureiras, estava se preparando para fugir de Auschwitz e contar ao mundo sobre as atrocidades dos nazistas, relata Adlington.

Sem vestígio das roupas 

Foto: Lucy Adlington

Terno de seda feito por Hunya para sua sobrinha

Embora a historiadora tenha conseguido falar com Bracha Kuhot e com familiares de outras costureiras para seu livro, ela não conseguiu encontrar vestígios das roupas feitas por essas mulheres.

"Que eu saiba, nenhuma roupa desse ateliê sobreviveu. Havia um livro de encomendas que, segundo uma testemunha, continha os nomes dos maiores nazistas de Berlim. Então, clientes de Berlim encomendavam suas roupas de Auschwitz. Mas as encomendas não sobreviveram", diz.

No entanto, Adlington, que é colecionadora de roupas vintage, conta que uma das costureiras sobreviventes de Auschwitz posteriormente costurou um terno de seda para uma sobrinha.

"A sobrinha dela me enviou o terno. Então, eu tenho um terno feito por uma das costureiras, que me faz chorar sempre que o vejo. É tão lindo pensar em tudo o que ela teve que fazer no campo para sobreviver, essa mulher chamada Hunya", afirma a autora, lembrando que o trabalho exercido no ateliê era escravo.

"Mas esse terno que ela fez para a sobrinha foi costurado com amor."