2.02.2022

Ano Novo Lunar: o que significa o Ano do Tigre e como data é comemorada na China e outros países

 Wanyuan Song e Jeremy Howell

BBC News 

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Aqueles nascidos no Ano do Tigre são considerados corajosos, competitivos e fortes

Esta terça-feira, dia 1º de fevereiro, marca o início do Ano Novo Lunar para 2022, uma data celebrada na China, na Ásia Oriental e por comunidades da região espalhadas pelo mundo.

As celebrações e o festival em torno da data incluem refeições e reuniões familiares, desfiles de rua e orações pedindo boa sorte para o ano que se inicia.

O que acontece no festival?

As celebrações começam com o nascer da segunda Lua nova após o solstício de inverno (21 de dezembro), o que pode acontecer em qualquer data entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro.

Também conhecido como Festival da Primavera, as festividades do Ano Novo marcam a despedida do ano anterior e têm como objetivo trazer sorte e prosperidade para o período que se inicia.

Há banquetes familiares e espetáculos de rua, incluindo fogos de artifícios e grupos de pessoas vestidas grandes dragões que dançam ao som de música tradicional.

As principais celebrações ocorrem na noite de Ano Novo e no primeiro dia do novo ano. Na China, milhões de pessoas viajam, muitas vezes milhares de quilômetros, para celebrar a data com suas famílias.

As pessoas decoram suas casas com a cor vermelha para atrair boa sorte, e crianças recebem pequenas quantias de dinheiro em envelopes vermelhos, brilhantes.

O período inteiro de festas dura duas semanas, concluindo neste ano em 15 de fevereiro com o festival das lanternas, que marcas a chegada da Lua Cheia.

Desde os anos 1990, a população chinesa desfruta de uma semana de feriado, longe do trabalho, para celebrar o Ano Novo. Segundo o Ministério do Comércio chinês, os consumidores do país gastam neste período do ano cerca de 820 bilhões de yuans (cerca de R$ 700 bilhões) em compras e refeições.

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Para os chineses, o vermelho é a cor da boa sorte e marca as comemorações

Ano do Tigre

Cada ano é associado a um dos 12 animais do horóscopo chinês. Este ano que começa é o Ano do Tigre, que sucede o Ano do Boi. Segundo a tradição local, aqueles nascidos no Ano do Tigre são corajosos, competitivos e fortes.

Em cantonês, a principal língua falada no sul da China e em Hong Kong, a mensagem de ano novo é "Gong Hei Fat Choy" (恭喜發財), que significa "desejo-lhe prosperidade". Em mandarim, a principal língua da China, as pessoas dizem "Xin Nian Kuai Le" (新年快乐), que significa simplesmente "feliz ano novo".

Quais as origens do festival?

Acredita-se que o Ano Novo chinês tenha surgido no século 14 antes de Cristo - 3.400 anos atrás, na Antiguidade -, quando a dinastia Shang governava o território chinês.

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As celebrações de Ano Novo na China começaram 

na Antiguidade e mantêm-se fortes até hoje

Suas origens são cercadas de lendas. Segundo uma delas, um monstro chamado Nian ("ano" em chinês) atacava aldeões no começo de cada ano. Nian tinha medo de ruídos altos, de luzes brilhantes e da cor vermelha. As pessoas, então, usaram esses instrumentos para expulsar o monstro.

Como o dragão é um símbolo chinês de poder e boa fortuna, muitas áreas do país celebram o ano novo com a dança do dragão, em que um longo boneco de dragão, formado por uma fila de pessoas, desfila pelas ruas como um dos destaques da festa.

O Ano Novo também é a época em que as pessoas limpam suas casas completamente e meticulosamente para se livrar de qualquer má sorte deixada pelo ano que termina.

Como outros países asiáticos celebram?

No Vietnã, o dia é chamado Tết Nguyên Đán, ou Tết,o que significa Festival da Primeira Manhã do Primeiro Dia. As pessoas limpam suas casas e as decoram com flores, como flores de pêssego e kumquats. O rosa da flor de pêssego representa energia, e o kumquat representa prosperidade.

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As celebrações do Ano Lunar no Vietnã incluem danças de leões

Na Coreia do Norte e na Coreia do Sul, é celebrado o Seollal, que dura três dias. Famílias coreanas servem comida a seus ancestrais em um ritual chamado Charye, para receber bênção para o ano que se inicia.

Na Coreia do Sul, a Spam, uma mistura de carne de porco enlatada, tornou-se um popular presente de ano novo. Pessoas pagam até US$ 75 (cerca de R$ 400) por cestas de presentes com as latas de carne.

Na Mongólia, o festival é chamado de Tsagaan sar, ou Festival da Lua Branca. As pessoas oram em ovoo - pilhas de pedras usadas como altar ou santuário. Elas também trocam garrafas de rapé (recipiente para tabaco), que acreditam unir as pessoas.

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A cidade de Nova York realiza uma das maiores celebrações do Ano Novo Lunar


Como é celebrado mundo afora?

A cidade americana de Nova York realiza uma cerimônia de foguetes, em que cerca de 600 mil pequenos fogos são detonados no parque Sara D. Roosevelt. Há danças de bonecos de leões e desfiles pelas ruas do bairro de Chinatown.

Cingapura organiza um desfile de ruas chamado Chingay, que conta com figuras infláveis, fantasias coloridas, apresentações ao vivo e fogos de artifício.

A cidade de Manchester tem uma das maiores e mais antigas comunidades chinesas no Reino Unido, e nas festividades de ano Ano Novo seu dragão de 53 metros desfila pelas ruas na direção do bairro de Chinatown.

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A história por trás do Ano Novo chinês

Centenas de milhões de pessoas em todo o mundo estão celebrando o Ano-Novo Chinês, um dos maiores espetáculos do planeta.

A virada acontece na primeira Lua Nova do calendário chinês, que é baseado nos ciclos da Lua e da Terra.

Em 2022, o novo ano chegará no dia 1º de fevereiro, data que é aguardada em diversos países do Oriente e que carrega tradições e simbolismo para essas culturas.

Cada ano tem o nome de um dos 12 animais do zodíaco chinês, sendo o ano que se inicia em 2022 o ano do tigre.

Conheça uma pouco mais sobre o festival no vídeo.


A solução da Europa medieval contra enchentes que salva vidas até hoje

 Andrea Valentino

BBC Future 

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Enchentes deixaram impacto devastador na Alemanha e em outras partes da Europa

No meio de 2021, após dias de chuva, o rio Meuse transbordou e a cidade de Liège, na Bélgica, foi sua vítima. Águas de cor marrom correram pela cidade, levando os residentes a usarem canoas enquanto suas casas desapareciam ao seu redor. Na cidade e em sua província, mais de 20 pessoas morreram, sendo que um homem se afogou em seu porão.

E este local no leste da Bélgica não estava sozinho. Na vizinha Alemanha, cerca de 200 pessoas morreram em enchentes no ano passado. A imprensa descreveu o nível das águas como um evento que ocorre uma vez em um século. O impacto financeiro do desastre também foi grande. Perto de Liège, uma única fábrica de chocolate sofreu danos no valor de cerca de 12 milhões de euros (mais de R$ 75 milhões).

No entanto, uma parte do norte da Europa sofreu muito menos. Na Holanda, as enchentes de verão também foram descritas como as piores em um século e os danos materiais foram graves, mas o país sobreviveu ao evento climático sem uma única fatalidade. As razões são muitas: evacuações rápidas, diques fortes e comunicação robusta entre eles. Mas o que sustenta essas formas variadas de defesa contra enchentes é uma instituição: os chamados "comitês da água", que protegem essa terra por quase um milênio.

Vale a pena entender essas associações pela maneira como combinam a democracia local, a tributação direta e a transparência para colocar a água no centro da vida holandesa.

E a Holanda não está sozinha. Das terras altas da Etiópia às comunidades ao longo do Danúbio, gestores de água em todo o mundo aplicaram aspectos do modelo holandês para suas próprias necessidades, melhorando a vida de milhares de pessoas ao longo do caminho. Em breve, outras regiões poderão precisar se juntar a elas, à medida que os países em todo o mundo enfrentam o aumento das inundações e alagamentos que vêm com as mudanças climáticas.

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Os chamados "comitês da água" são responsáveis pelas defesas contra enchentes

Quando Piet-Hein Daverveldt vai para o trabalho todas as manhãs, em meio às igrejas e paralelepípedos da cidade holandesa de Delft, ele diz que enxerga a história ao seu redor. "Obviamente, você está ciente de que é um sucessor", diz ele. "Você se apoia em muitas pessoas do passado."

No endereço 167 Oude Delft, é fácil ver o que ele quis dizer. Se você parar ali e olhar para cima, verá os brasões, as delicadas janelas com painéis, a imponente fachada gótica com acabamento de 1505. Este é o gemeenlandshuis da cidade, traduzido como a sede do conselho de água local, onde Daverveldt serve como o presidente - ou dijkgraaf, como seu título é conhecido lá.

Este elegante edifício tornou-se o gemeenlandshuis de Delft em 1645 - e mesmo isso é bastante novo no mundo dos lençóis freáticos. Conhecidos em holandês como waterschap (autoridade da água) ou hoogheemraadschap, alguns remontam ao século 12.

"Os agricultores, em particular, tiveram que se unir para proteger suas terras", explica Tracy Metz, co-autora de Sweet & Salt: Water and the Dutch (Doce e sal: a água e os holandeses, em tradução livre).

"Claro, cada corrente é tão forte quanto seu elo mais fraco, então houve uma pressão comum para que todos fizessem sua parte para manter suas terras secas." Mesmo hoje, isso ainda faz sentido em uma nação onde quase um terço da terra e metade das casas ainda estão abaixo do nível do mar. Os polders holandeses (terrenos baixos, planos e alagáveis) e diques precisam ser mantidos coletivamente.

Essa vulnerabilidade natural - "Netherlands" significa literalmente "país de baixa altitude", ou Países Baixos - ajuda a explicar o poder crescente dos conselhos de água. Na época em que os artistas Vermeer e Rembrandt estavam molhando seus pincéis em meados do século 17, os conselhos podiam cobrar seus próprios impostos e punir os poluidores. Nos escritórios do Rijnland Water Board em Leiden, você ainda pode encontrar um mastro de quase dois metros com um ferrete na ponta - que costumava ser usado para manter as pessoas na linha.

Mesmo assim, diz Metz, os comitês de água eram essencialmente órgãos representativos. Embora não fossem democráticos no sentido moderno, eram administrados em comunidade, com fazendeiros ou burgueses moldando sua organização local. Metz argumenta que os conselhos formaram a base do que viria a ser a democracia holandesa. 

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Os métodos modernos de gestão da água dos holandeses

 têm uma história surpreendentemente longa

Os conselhos da água claramente evoluíram a partir daquela época. Onde antes eram 3.500, restam apenas 21, representados por uma associação nacional. Mas, embora seu número tenha sido reduzido, seu papel foi possivelmente estendido: além de organizar e manter as defesas contra enchentes, também são responsáveis pelo controle de qualidade da água, manutenção de rios e canais e tratamento de esgoto.

E sua história distinta ainda se infiltra na vida holandesa contemporânea. Além de belos exemplos construídos em tijolo e pedra, isso pode ser visto claramente na linguagem.

O termo dijkgraaf, por exemplo, tem tons distintamente aristocráticos - significa literalmente "conde dos diques", servindo como um lembrete impressionante do passado profundamente feudal da Holanda. Enquanto isso, os políticos holandeses usam o verbo polderen para descrever o espírito de cooperação implícito nos comitês de água.

A história dos comitês da água também tem consequências práticas nos dias modernos. Como seus antepassados medievais, por exemplo, os conselhos de água ainda arrecadam verba de forma independente. De modo geral, as famílias pagam dois tipos de impostos: ao município e ao órgão de água. E, como Emilie Sturm argumenta, essa independência traz benefícios financeiros óbvios. Ao contrário de outros lugares, onde a gestão da água disputa por dinheiro com educação ou moradia, o modelo holandês "garante" que os cofres estejam sempre cheios, explica Sturm, gerente de programa do Blue Deal, o órgão que promove a expertise holandesa em água no exterior.

Isso se reflete nas estatísticas: os conselhos de água geram até 95% de seus orçamentos por meio de seus próprios impostos. Compare isso com o Estado americano do Texas, onde o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos anunciou recentemente que Houston e seu condado não receberiam nenhum novo financiamento para alívio das enchentes - apesar de terem pedido US$ 1,3 bilhão (R$ 7,25 bi).

Ao mesmo tempo, os comitês de água continuam sua longa tradição de governo aberto e eleito. A maioria dos cargos do conselho é agora eleita diretamente pelo público, embora alguns ainda sejam atribuídos a interesses corporativos na indústria, agricultura e meio ambiente. É certo que o holandês médio geralmente não se preocupa com seu conselho local: Rens Huisman, do Conselho de Água de Zuiderzeeland, os compara a árbitros de futebol: você os ignora quando eles trabalham bem.

Mesmo assim, esse poço profundo de localismo é útil. Por um lado, diz Daverveldt, a democracia promove investimentos e monitoramento transparentes. Por outro lado, os conselhos são compostos por especialistas, com conhecimento de sua própria localidade.

Esse regionalismo ficou patente no verão holandês de 2021, quando as diretorias adotaram diversas táticas para combater as enchentes. Em Rivierenland, atravessada por cursos de água, a equipe correu para inspecionar a solidez dos diques locais. Em Limburg, espremido entre a Bélgica e a Alemanha, o conselho propôs uma abordagem regional para cobrir os três países.

CRÉDITO,HOOGHEEMRAADSCHAP VAN DELFLAND

Os órgãos representativos holandeses incluem 

representantes eleitos, além de indicados por indústrias

Além da Holanda

Ao sul de Addis Abeba, na Etiópia, o rio Awash faz uma curva por cerca de 1.200 km através do coração do país, passando por matas e campos de trigo e por meninos cuidando de suas cabras ao sol. O terreno é acidentado aqui: muitas das colinas perto do rio chegam a 2.000 metros. À noite, grupos de babuínos dormem nas folhas das palmeiras para se esconder dos predadores. Em outras palavras, este é um lugar que parece tão diferente das terras baixas da Holanda quanto você pode imaginar.

No entanto, se você souber onde procurar, encontrará vestígios da Holanda em muitos lugares. Isso vale para as barragens e diques que revestem o Awash, mas também na forma como a hidrovia é administrada - desde os impostos até a representação. Tegenu Zerfu, um especialista em água da Etiópia, argumenta que isso não é nada surpreendente. "Garantir o futuro", diz ele, "pode ser obtido a partir do modelo de polder".

Nem as terras altas da Etiópia são únicas neste sentido. Durante anos, os gestores hídricos holandeses levaram seu conhecimento a terras distantes, construindo relacionamentos com países do Peru ao Vietnã. Ao todo, o Dutch Blue Deal funciona em 14 países, e os conselhos de água individuais também têm suas próprias parcerias, algo que os profissionais envolvidos veem como uma consequência natural da tradição polderen.

Jo Caris, colega de Huisman no Conselho de Água de Zuiderzeeland e especialista em hidrovias da Etiópia, diz que apoiar o conselho de água vizinho e o distante Awash são, na verdade, dois lados da mesma moeda.

Esse apoio também pode ser descrito como uma troca, acrescenta ele, com países de baixa renda também ensinando coisas aos veteranos holandeses. Sturm afirma algo semelhante. "A necessidade desse programa", explica ele, "realmente veio do entendimento de que, para nos adaptarmos às mudanças climáticas, precisamos aprender uns com os outros em todo o mundo".

Como este último comentário indica, os holandeses têm o cuidado de não exportar seus métodos no atacado e tentam trazer lições valiosas para casa também. Mas, embora seja improvável que uma gemeenlandshuis brote em Adis Abeba tão cedo, os comitês de água deixaram sua marca na Etiópia.

Isso fica claro, por exemplo, quando se trata de como Zerfu e seus colegas reformaram a tributação ao longo do Awash. Até a chegada dos holandeses, há vários anos, as principais empresas industriais tinham poucos incentivos para economizar água, um sério desafio em um país onde apenas 42% das pessoas têm acesso a um abastecimento de água potável. Mas as coisas são diferentes agora: os agricultores pobres ao longo do Awash estão isentos do imposto sobre a água, enquanto os usuários maiores devem pagar sua parte.

Melhor ainda, Zerfu diz que, assim como o modelo holandês, este sistema é autofinanciável - crucial em um país onde há conflitos contínuos, abusos dos direitos humanos e pobreza (um quarto da população vivia abaixo da linha da pobreza em 2016).

CRÉDITO,BLUE DEAL

Hoje, a experiência holandesa com água é usada em diferentes 

paisagens ao redor do mundo, incluindo em projetos da África

Você também pode ver reflexos dos sistemas holandeses na abordagem da representação na Etiópia.

Nada como uma eleição de conselhos de água existe ao longo do Awash: a democracia da nação é muito frágil. Mesmo assim, os holandeses e as autoridades locais encorajaram os pequenos agricultores a se juntar às associações locais de usuários de água, dando-lhes poder coletivo para negociar com o estado e a indústria.

Esquemas modestos como esse, diz Huisman, são típicos de como os holandeses operam no exterior. "Você tem que olhar para os princípios que estão em nosso modelo de governança - e adaptá-lo quando você o aplica a outros países."

Isso vale também para países mais próximos da Holanda. Mirela Ciucur é a chefe de assuntos econômicos da Administração Nacional de Águas da Romênia. Como Tegenu Zerfu, ela viu a influência do modelo holandês em sua terra natal, especialmente quando se trata de boa governança.

Historicamente, os gastos dos impostos romenos sobre a água careciam de transparência, explica Ciucur. Inspirada na Holanda, Ciucur desenvolveu um modelo de análise econômica para entender exatamente o que precisava de dinheiro - de defesas contra enchentes à manutenção de praias. Além de ser mais transparente, esta abordagem incita a Romênia ao modelo de "recuperação de custos" tão bem-sucedido na Holanda.

Como na Etiópia, com certeza, as comparações não são exatas. Embora a Romênia já tenha 11 conselhos regionais de água, por exemplo, seus orçamentos são administrados centralmente a partir de Bucareste. Mesmo assim, Ciucur está finalmente convencida da necessidade de ir para o modelo holandês.

Quando as chuvas chegaram, uma polegada (2,5 cm) por hora na máxima força, a torrente era imparável. As pessoas tiveram que ser salvas em cerca de 900 vilas, e as enchentes vieram tão rápido que os soldados tiveram que salvar as pessoas em frágeis barcos de madeira, guiando mulheres idosas pela lama.

A descrição acima serviria para as inundações na Alemanha ou na Bélgica: aconteceram no verão, poucas semanas depois de Liège e seus vizinhos terem sido devastados, e mais de 100 pessoas morreram ali também. Mas, na verdade, esta última catástrofe aconteceu do outro lado do mundo em relação à Holanda, no Estado indiano de Maharashtra.

Esses desastres, iguais em causa, consequência e escala de tempo, mostram de maneira pungente a ameaça de enchentes em uma era de emergência climática. Em uma faixa da Europa Ocidental, os cientistas descobriram que as mudanças climáticas aumentam a quantidade de chuva que cai em um determinado dia em até 19%, o que aumenta drasticamente o risco de inundações.

Os pesquisadores sugeriram que as mudanças climáticas tornaram as recentes inundações na Alemanha nove vezes mais prováveis. Os cientistas chegaram a conclusões semelhantes sobre o subcontinente, observando que as mudanças climáticas estão ajudando a colocar 75% dos distritos indianos em risco de desastres climáticos, como inundações. E não apenas nessas duas áreas do mundo. Partes de Dakota do Sul, Nebraska e Novo México podem ter um aumento de cinco vezes na exposição a enchentes até 2100.

Em outras palavras, os problemas que recentemente afetaram a Bélgica e a Índia estão se tornando ameaças verdadeiramente globais. Isso naturalmente levanta a questão: o que deve ser feito? Claro, a resposta final é assustadoramente complexa, abrangendo desde energia verde até melhores leis de planejamento. Mas poderia o modelo holandês de gestão da água - com seus pilares de independência, transparência, colaboração e adaptabilidade às condições locais - oferecer lições mais amplas também?

Especialistas acreditam que sim. "Poderia funcionar muito bem", argumenta Tracy Metz, "se essas organizações tivessem autonomia e influência suficientes para que o que decidissem realmente acontecesse". Sturm concorda. A água, ela enfatiza, vai ter um "papel imenso" no mundo de amanhã. "Portanto, a necessidade de uma autoridade de recursos hídricos estar presente e ter o conhecimento certo, as instituições certas, o gerenciamento certo das partes interessadas é muito importante".

Também há sinais de que até mesmo lugares sem vínculos diretos com o Blue Deal estão pensando em parâmetros holandeses. Na Virgínia (EUA), por exemplo, cidades vulneráveis em todo o Estado estão cooperando para desenvolver um plano diretor costeiro unificado, incentivando o governo a tomar mais iniciativas financeiras após uma emergência. Enquanto isso, do outro lado do país, o Conselho Estadual de Controle de Recursos Hídricos da Califórnia está pensando em se conceder mais poderes, potencialmente obrigando as pessoas que controlam rios e riachos a compartilhar com a comunidade. Se eles puderem fazer isso sem recorrer a um ferrete, melhor.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês), no site da BBC Future.




A Independência ressignificada

 Vicente Vilardaga

Revista ISTOÉ 

(Crédito: José Rosael)

SÍMBOLO O quadro “Independência ou Morte”, de Pedro Américo,

 foi totalmente restaurado; e a fachada recuperou a cor amarela original 

Quando, há cem anos, em 1922, no centenário da Independência, o engenheiro e historiador Affonso de Taunay estabeleceu as bases conceituais do Museu do Ipiranga e constituiu sua coleção, a ideia central era colocar os bandeirantes e o poderio dos paulistas de antanho no alto do pedestal. Uma visão do passado que revalidava os grandes feitos dos homens brancos se impôs na implantação do espaço de exposições, seguindo o pensamento do seu diretor e as imposições simbólicas associadas à República. Agora, no bicentenário, a história é outra. Reformado, ampliado e modernizado, o museu, que fechou em 2013, por causa do risco de desabamento, e será reinaugurado no próximo dia Sete de Setembro, vai se desenvolver de forma diferente, buscando outros atores esquecidos no processo de Independência e refletindo a diversidade de forças na sociedade e sua composição racial. Personagens secundários na história oficial ganharão protagonismo. Se a visão que definiu o centenário foi a de Taunay, a do bicentenário está mais alinhada com a de um de seus sucessores, o historiador Ulpiano de Menezes, que comandou a instituição entre 1989 e 1994 e estabeleceu um ambiente de reflexão crítica sobre os acontecimentos. “Tradicionalmente, o museu está associado à memória das elites cafeicultoras e dos Bandeirantes”, diz o historiador Paulo Garcez, professor da USP e um dos curadores do museu. “Mas em 100 anos aprendemos muito. Vamos fazer uma revisão importante dessa representação do passado brasileiro.”

Acessibilidade e segurança

Para abrigar novas ideias relacionadas ao processo de independência do País e inserir o museu numa lógica contemporânea, está sendo feito um investimento total de R$ 210 milhões na sua revitalização. A reforma do monumento, 78% concluída, é impressionante pela grandiosidade e nível de detalhamento. Além de dobrar de tamanho, já que abaixo do prédio histórico, no nível no Jardim Francês, foi construído um anexo de 6 845 metros quadrados, a obra incorporará vários equipamentos indispensáveis. Haverá um espaço climatizado para receber exposições temporárias, algo impossível na antiga construção, por causa da falta de ar condicionado, além de café, auditório com capacidade para 200 pessoas, bilheterias e loja. O que se vê neste momento é um trabalho impecável e acelerado de recuperação de pisos, elementos de marcenaria, como portas, janelas e batentes e de espaços de exposições, que mobiliza cerca de 450 profissionais. “Toda a obra é muito delicada e envolve a recuperação de 220 portas e 1,9 mil metros quadrados de assoalhos”, diz o engenheiro Frederico Martinelli, que comanda o projeto. A construção ganhará um mirante panorâmico com vista de 360 graus. Também serão resolvidos problemas de acessibilidade e de segurança. Os incêndios do Museu Nacional, no Rio, e do Museu da Língua Portuguesa, sensibilizaram patrocinadores e autoridades para tornar o museu seguro. Não por acaso, sua atual diretora, a arquiteta Rosaria Ono, que ficará no cargo até o ano que vem, é especialista em previsão de riscos.

 Marco Ankosqui

O investimento total na restauração e ampliação do museu será de R$ 210 milhões 

e sua inauguração fará parte das comemorações de Sete de Setembro

Concluído em 1890, o prédio histórico, projetado pelo engenheiro e arquiteto Tommaso Bezzi, foi erguido para marcar o lugar da Independência e referendar a importância simbólica do grito de Dom Pedro I às margens do Riacho do Ipiranga. Numa primeira fase, abrigou o Museu de Ciências Naturais, depois, com a chegada de Taunay, em 1917, foi convertido em museu histórico. Desde 1963, o Ipiranga, cujo nome oficial é Museu Paulista, está sob o controle da Universidade de São Paulo. Seu acervo conta com 450 mil itens, entre objetos, obras de arte, mobiliário e documentação textual. Até 2010, era o espaço museológico mais visitado da cidade, graças principalmente às excursões de estudantes, e ao forte vínculo afetivo que tem com a população. A expectativa é que recupere essa condição a partir do ano que vem. A entrada de estudantes será gratuita e o preço estimado do ingresso será de R$ 15 a R$ 20. Com tantas novas atrações, o que se espera é que quando estiver funcionando a plena carga, o museu receba cerca de um milhão de visitantes ao ano.

  (Crédito:Marco Ankosqui)

GIGANTISMO Obra envolve a restauração de

 220 portas e de 1,9 mil m2 de assoalhos

“O processo colonial foi muito violento e as representações atuais oferecem uma visão pacificadora do passado”, diz Garcez. “Iremos superar o legado de Taunay, que era muito excludente e enaltecia a figura dos exploradores”. Taunay esteve à frente da instituição até 1945. Foi sucedido pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda. Ulpiano assumiu posteriormente e reorientou as perspectivas narrativas do museu a partir de três pilares: a história do imaginário, o universo do trabalho e cotidiano e sociedade. Na inauguração, prevista para a efeméride da Independência, serão abertas 11 exposições permanentes e uma temporária chamada Memórias da Independência, com duração de quatro meses, que, além da epopeia paulista, incorporará movimentos libertadores de outros estados, visando mostrar a amplitude do processo histórico. Mas apesar da revisão conceitual, ninguém precisa se preocupar. Um dos maiores destaques do museu, o gigantesco quadro de Pedro Américo, “Independência ou Morte”, que foi totalmente restaurado, continuará brilhando no mesmo Salão Nobre de sempre para deleite dos visitantes.


A história das mulheres que foram decisivas na Proclamação da Independência

 Eduardo F. Filho

Revista ISTOÉ

Lutando pela libertação do Brasil contra tropas portuguesas, quatro mulheres, de estamentos sociais extremamente diversos, mudaram o destino do País

 (Crédito: Divulgação)

CORAGEM A abadessa Joana Angélica se coloca diante de tropas 

portuguesas para salvar as freiras que fugiam pelos fundos do convento 

“Diga ao povo que fico”. A célebre frase dita por D. Pedro I em janeiro de 1822 foi vista pelos portugueses como um ato de arrogância e rebeldia do então príncipe regente. No Brasil, o acontecimento foi festejado como uma decisão democrática, seguindo a vontade do povo. O Dia do Fico, há 200 anos, não foi só uma materialização da queda de braço entre o reino de Portugal e a colônia brasileira, mas o início de confrontos violentos, principalmente na região Nordeste do País, que culminariam mais tarde na Independência. Nos bastidores, quatro mulheres destemidas lutaram mostrando garra, força, coragem, destreza e mudaram os rumos da história em uma demonstração da força feminina do século XIX.

 

GUERREIRA Maria Felipa incendiou mais de 40 barcos de Portugal

Salvador vivia dias de tensão, moradores eram obrigados a abandonar a cidade com a família enquanto viam tropas portuguesas saquear suas casas e assassinar parentes. Já passava do meio dia de 20 de fevereiro de 1822 quando soldados de Portugal tentaram invadir o Convento da Lapa sob o pretexto de que ali se abrigavam rebeldes. Os soldados foram recebidos pela abadessa Joana Angélica de Jesus, senhora conhecida e admirada por sua virtude e religiosidade junto a população residente nas cercanias da igreja. Aos 60 anos, ela se colocou diante da porta para proteger as demais irmãs que tentavam fugir pelos fundos. “Para trás, bárbaros! Respeitai a casa de Deus! Só entrarão passando por cima do meu cadáver!”, teria dito antes de ser golpeada por uma baioneta e morrer em seguida. Joana Angélica se tornou um símbolo de resistência contra o autoritarismo português e a primeira mártir do movimento de independência que ocorreria sete meses mais tarde.

 (Crédito:Divulgação)

GUERREIRA

Maria Quitéria  foi a primeira mulher a entrar no Exército Brasileiro 

Joana Angélica não foi a única baiana que entregou sua vida heroicamente pela liberdade. A negra liberta Maria Felipa ajudou a frear o avanço das tropas portuguesas pelo território brasileiro. Trabalhadora braçal, pescadora e marisqueira, ela liderou um grupo de 200 colegas em batalhas contra os portugueses que atacaram a ilha de Itaparica. Com a ajuda de outras mulheres, usou seu charme e seduziu os portugueses conduzindo-os à morte. Armadas de facões e galhos, surravam os navegadores que desembarcavam na ilha e ateavam fogo aos seus barcos. Somente o grupo de Maria Felipa queimou 40 embarcações portuguesas.

Nossa Joana D’Arc

Maria Quitéria, talvez a mais famosa das mulheres separatistas, sabia montar, caçar e manejar armas de fogo. Ela fugiu de casa, disfarçou-se de homem e lutou contra os portugueses, numa época em que às mulheres deveriam obedecer ao pai ou ao marido e cuidar da casa e dos filhos. Comparada a Joana D´Arc no Brasil, ela foi a primeira a entrar no Exército. “Além da independência oficial, essas mulheres travaram outra guerra de independência que durou até 1823. Se temos os patronos, por que não nomeá-las como as verdadeiras patronas?”, indaga o professor de história do Colégio Presbiteriano Mackenzie, Victor Missiato.

Além das baianas, outra mulher que foi essencial na Proclamação da Independência foi a Imperatriz Maria Leopoldina, principalmente na diplomacia entre o Brasil e países europeus, como a Áustria, onde seu pai era imperador, no reconhecimento da libertação. Foi apenas no dia 2 de julho de 1823, quase um ano depois do Grito do Ipiranga, que declarou-se a expulsão definitiva dos portugueses. A Bahia, nessa data, celebra a sua independência. Em julho de 2018, Maria Felipa, Joana Angélica de Jesus, Maria Quitéria e a imperatriz Maria Leopoldina foram declaradas Heroínas da Pátria Brasileira. Já era a hora.


Os "zoológicos humanos" da era colonial

 Sven Töniges

Deutsche Welle

Até o século 20, espetáculos etnológicos promovidos por nações colonizadoras exibiam pessoas como objetos exóticos. Exposições em Bruxelas e Berlim jogam luz sobre esse capítulo sombrio da história colonial.

© Groupe de recherche Achac/priv. coll. Exposição


Em um amplo parque no subúrbio de Tervuren, em Bruxelas, 267 mulheres e homens da colônia belga do Congo eram exibidos como em um jardim zoológico.

Trazidos para a Bélgica a mando do rei Leopoldo 2º, eles foram abrigados em cabanas com telhados de palha em uma falsa "aldeia do Congo", para serem admirados pelo público europeu. Até 40 mil pessoas por dia iam observá-los durante a Feira Mundial de 1897.

Até o final do evento, sete congoleses morreram. Em sua homenagem, o AfricaMuseum de Tervuren – projetado como um museu colonial no final do século 19 e, desde então, reformado e renomeado diversas vezes – realizará até o dia 5 de março uma exposição especial: "Zoológicos humanos: a era das exposições coloniais".

"Superioridade europeia"

Na Conferência de Berlim de 1884-1885, também conhecida como Conferência da África Ocidental ou Conferência do Congo, o continente africano foi dividido entre 14 nações europeias. O rei belga Leopoldo 2º recebeu uma área 80 vezes maior do que o território de seu país para ser sua colônia particular: o Congo.

Seu museu de nome "Palácio Africano" em Tervuren, complementado pelas exposições com atracões vivas, não deixava dúvidas sobre a alegação europeia de uma suposta superioridade. Uma placa de bronze debaixo de uma imagem de Leopoldo 2º com duas crianças negras trazia a seguinte frase: "A Bélgica leva a civilização ao Congo."

 © Priv. coll. Classificação de


Na realidade, porém, os belgas exploraram impiedosamente os recursos do país africano, com os nativos abusados na condição de trabalhadores ou trazidos para a Europa para serem expostos como animais.

Passatempo popular

O zoológico humano atraía multidões, conta o historiador e antropólogo Marteen Couttenier, um dos três curadores da exposição em Bruxelas.

Os congoleses eram apresentados, literalmente, como homens das cavernas, que dançavam com saias de ráfia, cheios de instintos primitivos. Eles jamais eram exibidos como intelectuais, artistas ou simplesmente como pessoas normais.

Isso tampouco era um fenômeno regional, afirma Couttenier. Pessoas de diferentes raças eram expostas e exibidas em toda a parte, na Europa, América, Japão e até na África. O mecanismo, porém, era sempre o mesmo. Os visitantes iam observar algo completamente estranho a eles, de modo a se sentirem "superiores".

Pseudociência de tipos raciais

Durante o auge do colonialismo europeu, exposições de africanos, "pele-vermelhas", ou lapões escandinavos, chamadas de "zoológicos humanos", viajavam por várias cidades como atracão popular. As pessoas exibidas eram classificadas usando-se um tipo rudimentar de antropologia "científica".

Um diagrama de 1903 de "tipos raciais" mostrava como as fantasias racistas de superioridade rebaixavam os não europeus ao nível dos primatas. Os poderes coloniais estavam realmente convencidos de sua "superioridade civilizada". 

© RMCA Tervuren Pintura no Museu de Tervuren. 

Belgas afirmavam levar civilização ao Congo

Na Alemanha, Carl Hagenbeck, comerciante de animais em Hamburgo e fundador de um zoológico, transformou a exposição de humanos em um modelo de negócios. Na Oktoberfest de Munique, a exposição "Selvagens dos mares do sul", apresentada pelo showman Friedrich Wilhelm Siebold, durou até 1931.

Exposição em Berlim sobre "zoos humanos"

A primeira exposição colonial realizada na Alemanha foi em 1896. Como parte de uma feira comercial em Berlim, os organizadores ergueram uma aldeia em um parque no bairro de Treptow.

Atraídos por promessas falsas, mais de 106 africanos das colônias alemãs foram levados para Berlim, onde foram forçados a se apresentarem para o público durante sete meses como aldeões em trajes exóticos. Eles eram constantemente submetidas a humilhações públicas e "exames raciais".

A exposição permanente Zurückgeschaut ("Olhar para trás") no Museu Treptow, reaberta em outubro de 2021, joga luz sobre esse capítulo sombrio e rastreia as biografias de pessoas que eram reduzidas a objetos.

 © Daniela Incoronato Exposição

O evento também mostra como os colonizadores inesperadamente encontravam resistência quando as atracões das exposições saíam do papel a eles designado. Por exemplo, quando o camaronês Kwelle Ndumbe comprou um par de binóculos de ópera para observar o público.


A tecnologia inovadora que alimentou o Império Inca

 Shafik Meghji

BBC Travel 

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No século 15 e início do 16, uma pequena ilha no lago Titicaca era um dos locais religiosos mais importantes da América do Sul.

Reverenciada como o local de nascimento do Sol, da Lua e da dinastia Inca, Isla del Sol ("Ilha do Sol") atraía peregrinos de toda parte dos Andes.

Há alguns anos, segui os passos deles, pegando um barco na cidade boliviana de Copacabana para atravessar as águas agitadas do lago, que fica a 3.812m de altitude, sendo o único lugar do planeta que um viajante pode "sofrer de enjoo no mar e mal da altitude ao mesmo tempo", de acordo com o explorador britânico Percy Harrison Fawcett, que o visitou no início do século 20.

Após atracar na costa nordeste de Isla del Sol, segui uma trilha centenária passando por uma série de ruínas incas e pré-incas — tambos (estalagens), santuários, templos, praças, altares e um complexo cerimonial que inclui Titikala, um afloramento de arenito de onde o deus criador dos Andes Viracocha teria gerado o Sol e a Lua.

Fascinado pelos sítios arqueológicos antigos e pela vista da Cordilheira Real coberta de neve à distância, prestei pouca atenção às plantações em socalcos (técnica de cultivo em degraus) que serpenteavam ao longo das encostas da ilha.

No entanto, esta façanha aparentemente simples de engenharia agrícola ajudou os Incas a construir o maior império da história da América do Sul.

Conhecidos como andenes ("plataformas", em tradução literal), estas plantações em socalcos estão espalhadas pelos Andes Centrais.

Construídos pela primeira vez há cerca de 4.500 anos por culturas antigas de toda a região, eles foram aperfeiçoados pelos Inca, que surgiram no século 12 e eram mestres na adoção e adaptação de técnicas, estratégias e sistemas de crenças de outras sociedades.

Os andenes, diz Cecilia Pardo Grau, curadora da exposição Peru: A Journey in time em cartaz no British Museum, em Londres, foram "uma forma criativa de desafiar o terreno... que permite uma maneira eficiente de cultivar [lavouras]".

Eles permitiram que as comunidades andinas superassem ambientes desafiadores, incluindo encostas íngremes, solo ralo, temperaturas extremas e oscilantes e chuvas escassas ou sazonais.

Abastecidos por poços artificiais e elaborados sistemas de irrigação, os andenes expandiram significativamente a área de terras cultiváveis.

Eles também conservaram água, reduziram a erosão do solo e — graças aos muros de pedra que absorviam o calor durante o dia e depois o liberavam à noite — protegiam as plantas de geadas severas.

Como ilusão de ótica

Isso permitiu que os agricultores cultivassem dezenas de safras diferentes, de milho e batata a quinoa e coca, muitas das quais não teriam sobrevivido na região. 

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Choquequirao foi construído durante o auge do império Inca no fim do século 15

O resultado foi um aumento dramático na quantidade total de alimentos produzidos.

Além de sua engenhosidade, os andenes também possuem uma qualidade artística, formando vastos padrões geométricos nas paisagens dos Andes.

Alguns se parecem com gigantescas escadarias verdes esculpidas na encosta da montanha, enquanto outros são feitos de conjuntos de círculos concêntricos, chamando a atenção como uma ilusão de ótica.

Um dos mais impressionantes é o sítio arqueológico peruano de Moray, que se assemelha a um anfiteatro natural. Localizado a cerca de 50 km ao norte da antiga capital inca de Cuzco e 3.500m acima do nível do mar, ele demonstra como os andenes eram usados para criar uma variedade de microclimas.

Graças aos vários desenhos, tamanhos, profundidades e orientações dos socalcos, a diferença de temperatura entre o mais alto e o mais baixo é de cerca de 15ºC.

Moray foi descrito como uma "estação de pesquisa agrícola": amostras de solo de todo o império foram descobertas aqui, e os pesquisadores argumentam que os Incas podem ter usado o local para experimentar práticas como rotação de culturas, domesticação e hibridização.

Técnicas agrícolas sofisticadas, como os andenes, desempenharam um papel vital na expansão do império Inca, que era conhecido como Tawantinsuyu e se estendia por grande parte do Peru moderno, oeste da Bolívia, sudoeste do Equador, sudoeste da Colômbia, noroeste da Argentina e norte do Chile em seu auge. 

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As plantações em socalcos podem ser encontradas 

espalhadas pelas encostas íngremes dos Andes centrais

Um dos relatos mais antigos que temos conhecimento sobre seu uso vem de Garcilaso de la Vega (1539-1616), filho de uma nobre inca e um conquistador espanhol.

Após conquistar um novo território, os Incas começavam a expandir a quantidade de terras agrícolas levando engenheiros qualificados, observou de la Vega em seu livro Royal Commentaries of the Incas.

"Depois de cavar os canais [de irrigação], eles nivelavam os campos e os retificavam para que a água da irrigação pudesse ser distribuída de forma adequada", escreveu ele.

"Eles construíam socalcos nas montanhas e nas encostas, onde o solo era bom… Desta forma todo o monte foi sendo gradualmente cultivado, as plataformas sendo aplainadas como degraus de uma escada, e todo o terreno cultivável e irrigável sendo aproveitado."

O terreno recém-expandido era posteriormente dividido em três partes: uma para o imperador Inca; outra para fins religiosos; e uma terceira para a comunidade, cujos lotes eram distribuídos pelas lideranças locais.

Embora não fossem tributados, os agricultores eram obrigados a passar um tempo trabalhando nas terras religiosas e do imperador, assim como nas suas próprias terras.

Técnicas como os andenes eram combinadas com políticas como a mitma, em que as pessoas eram levadas para territórios recentemente conquistados para ajudar a consolidar o controle inca; e a mit'a, uma forma de serviço público obrigatório usado para fornecer mão de obra para construir infraestrutura, incluindo uma rede de estradas com dezenas de milhares de quilômetros de extensão.

Esta abordagem em relação à agricultura, comunidade e organização imperial permitiu aos Incas acumularem grandes excedentes de alimentos para uso durante as secas, inundações, conflitos e outros períodos de escassez.

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O dramático Vale do Colca, no sul do Peru, 

é duas vezes mais profundo que o Grand Canyon

Estas reservas — que incluíam chuño, batata liofilizada produzida por repetida exposição à geada e ao sol forte — eram mantidas em enormes depósitos chamados qullqas.

Na ausência de uma linguagem escrita, os Incas usavam um sistema complexo de cordas multicoloridas com nós, conhecido como quipu (ou khipu), para administrar os estoques, assim como para manter o controle de população e dados astronômicos.

Alguns acadêmicos acreditam que o quipu pode até ter sido usado para registrar narrativas como histórias, canções e poemas.

Grau argumenta que os quipus — há exemplares em exibição na exposição do British Museum — eram fundamentais para a sociedade Inca.

"Eles herdaram esse conhecimento dos Wari, uma sociedade que existia nas terras altas do sul, 400 anos antes dos Incas", diz ela.

"Os Incas usavam um sistema decimal: eles tinham um nó diferente para cada número de um a nove, e depois para dezenas, centenas e milhares... o quipu era essencial na forma como o império funcionava e era organizado."

No fim das contas, os andenes, os estoques de alimentos e os quipus ajudaram os Incas a expandirem constantemente um império que acabou dominando uma grande parte da América do Sul, abrangendo 12 milhões de pessoas e produzindo cidadelas majestosas como Machu Picchu.

Mas a chegada dos conquistadores espanhóis no século 16 provocou a queda dos Incas e o declínio dos andenes.

A violência colonial, as epidemias de doenças europeias e os deslocamentos forçados devastaram as populações indígenas dos Andes Centrais.

Lavouras e práticas agrícolas europeias foram introduzidas e rapidamente se espalharam por toda a região.

No entanto, embora muitos andenes tenham sido abandonados ou caíram em desuso, eles nunca desapareceram por completo.

Com base no conhecimento transmitido ao longo das gerações, muitos agricultores andinos continuam a usá-los hoje e, embora muitas vezes esquecidos pelos turistas, ainda é comum avistá-los em lugares como a Isla del Sol e a região do Titicaca como um todo, o Vale Sagrado perto de Machu Picchu, e o Vale do Colca no sul do Peru, que tem o dobro da profundidade do Grand Canyon.

Nos últimos anos, também houve um interesse acadêmico renovado pelos andenes como uma forma de agricultura sustentável que poderia ajudar o mundo a enfrentar a crise climática, a escassez de água e a erosão do solo.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, por exemplo, descreve a cultura andina tradicional como "um dos melhores exemplos de adaptação e consciência dos agricultores do meio ambiente" e destaca sua abordagem sustentável em relação ao uso da terra, gestão da água, proteção do solo e biodiversidade de culturas.

Quatro mil e quinhentos anos após terem surgido, as plantações em socalcos dos Andes parecem estar à frente de seu tempo.

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.




O antigo império asiático que floresceu e morreu por conta da água

 Marissa Carruthers

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Todo mês de abril, durante as celebrações do Ano Novo Khmer, Sophy Peng, acompanhada dos pais e dos quatro irmãos, faz a peregrinação à montanha mais sagrada do Camboja, Phnom Kulen.

Como berço do poderoso Império de Angkor, as lendárias encostas de Kulen ocupam um lugar especial no coração dos habitantes locais.

Durante os festivais religiosos, os cambojanos sobem em massa até seu pico para serem abençoados pelas mesmas águas usadas para coroar os reis desde 802 d.C.

Tudo começou quando o fundador do império Jayavarman II se banhou com a água sagrada e se declarou um devaraja ou deus-rei, marcando o início do Império de Angkor.

O império se estendia por grande parte dos atuais Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã, e abrigava o maior centro urbano pré-industrial do mundo — a cidade de Angkor.

Para imortalizar este local sagrado que fica a cerca de 50 km ao norte da cidade de Siem Reap, 1.000 lingas — símbolo fálico que representa o deus hindu Shiva — foram esculpidas no leito do rio em Kbal Spean, de onde a água flui para as planícies de Angkor e para o Lago Tonle Sap.

Ainda hoje, esta água é considerada sagrada, e acredita-se que seu poder cura doenças e traz sorte.

"Este é um lugar muito especial para os cambojanos; é uma parte importante da nossa história", conta Peng.

"Todos os anos, minha família visita o Monte Kulen como parte dos nossos rituais de Ano Novo Khmer. Levamos doações de alimentos para deixar no templo e derramamos água de Kbal Spean na gente para trazer boa sorte."

A bênção espiritual de Jayavarman II marcou o início da estreita relação do Império de Angkor com a água.

No entanto, só quando a capital mudou para Rolous e, em seguida, para sua última morada por mais de cinco séculos — Angkor —, que os engenheiros foram capazes de usar suas habilidades para criar o intrincado sistema de água que alimentou a ascensão e a queda do império.

"As planícies de Angkor são ideais para o florescimento de um império", explica Dan Penny, pesquisador do departamento de geociências da Universidade de Sydney, na Austrália, que estudou Angkor exaustivamente.

"Há vastos recursos, como solo bom para (plantio de) arroz perto do Lago Tonle Sap. O lago é um dos locais de pesca continental mais produtivos do mundo, e Angkor fica bem na costa norte desta enorme tigela de comida. Angkor cresceu e se tornou um sucesso apoiada nestes recursos."

Nas décadas de 1950 e 1960, o arqueólogo francês Bernard Philippe Groslier usou a arqueologia aérea para reconstruir o traçado das antigas cidades de Angkor.

O resultado revelou seu vasto alcance e a complexidade de sua rede de gestão de recursos hídricos, o que levou Groslier a apelidar Angkor de "Cidade Hidráulica".

Desde então, arqueólogos realizaram pesquisas extensas sobre sua rede de água e o papel vital que a mesma desempenhou.

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O leito do rio de Kbal Spean está situado nas profundezas da selva a nordeste de Angkor

Em 2012, a verdadeira extensão do seu sistema hídrico, que abrange 1.000 km2, foi revelada por meio da tecnologia de escaneamento aéreo a laser LiDAR, sob a liderança do arqueólogo Damian Evans, pesquisador da École Française d'Extrême-Orient.

"As peças que faltavam no quebra-cabeça ficaram claras", afirma Evans.

"Estamos trabalhando agora em um estudo que é o mapa final e definitivo de Angkor, ele mostra a imagem real, incluindo o sistema hídrico A água foi um dos segredos do sucesso do império."

Para criar uma cidade do seu tamanho, os canais artificiais escavados para direcionar a água de Phnom Kulen para as planícies de Angkor foram essenciais para sua construção.

Eles foram usados para transportar os cerca de 10 milhões de tijolos de arenito, alguns com até 1.500 kg, que estima-se terem sido utilizados para erguer Angkor.

Além de garantir fornecimento de água o ano todo em um clima de monções para abastecer a população, a agricultura e a pecuária, o sistema hídrico alimenta as fundações que mantiveram os templos de pé por séculos.

O solo arenoso por si só não é suficiente para suportar o peso das pedras.

No entanto, os engenheiros descobriram que a mistura de areia e água cria bases estáveis, de modo que os fossos que circundam cada templo foram projetados para fornecer um suprimento constante de água subterrânea.

Isso criou fundações fortes o suficiente para manter os templos estáveis e evitar que desmoronassem séculos depois.

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O Império de Angkor abrangeu grande parte 

dos atuais Camboja, Laos, Tailândia e Vietnã

Ao longo da história do império, sucessivos reis expandiram, restauraram e aprimoraram a complexa rede de água de Angkor.

Isso contempla uma impressionante rede de canais, diques, fossos, barays (reservatórios) — o West Baray é a maior e mais antiga estrutura feita pelo homem que pode ser vista do espaço, com 7,8 km de comprimento e 2,1 km de largura —, assim como uma engenharia sofisticada para controlar o fluxo de água.

"O sistema hídrico de Angkor é único devido à sua dimensão", diz Penny.

"Há muitos exemplos de cidades históricas com sistemas elaborados de gestão de recursos hídricos, mas nada parecido com isso. A dimensão dos reservatórios, por exemplo. A quantidade de água que o West Baray armazena é incrível."

'É estonteante; é um mar'

No entanto, embora tenha sido a água que contribuiu para a ascensão do Império de Angkor, foi também a água que contribuiu para sua derrocada.

"Está claro que a rede de gestão de recursos hídricos foi muito importante para o crescimento da cidade e gerou riqueza e poder", diz Penny. 

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Engenheiros criaram o intrincado sistema hídrico que

 levou à ascensão e à queda do Império de Angkor

"Mas à medida que ficava cada vez mais complexa e maior, se tornou o calcanhar de Aquiles da própria cidade."

Uma pesquisa revela que no final do século 14 e início do século 15, mudanças climáticas dramáticas causaram chuvas de monções prolongadas seguidas de secas intensas.

Estas mudanças climáticas afetaram a rede de gestão de recursos hídricos, contribuindo para a posterior queda do poderoso império.

"A cidade inteira estava sendo golpeada por estas enormes variações climáticas", explica Penny.

"A dimensão da rede e sua interdependência significou que o distúrbio enorme das secas, e a iniciativa das pessoas de mudarem o sistema para lidar com isso, seguida por anos muito chuvosos, destruíram algumas partes. Isso fragmentou toda a rede, tornando-a inutilizável."

Pesquisas mais aprofundadas sugerem que essas mudanças climáticas, combinadas com o colapso do sistema hídrico e o aumento dos ataques dos vizinhos siameses, levaram a capital a mudar para Oudong.

"Os livros de história dizem que o fim de Angkor aconteceu porque os siameses a invadiram em 1431", diz Damian.

"Não acho que isso tenha acontecido. As evidências que temos indicam que foi mais a longo prazo. A pressão de grandes secas, o colapso do sistema de gestão de recursos hídricos, os constantes ataques dos siameses e a expansão das rotas marítimas, tudo isso contribuiu."

Seja como for, uma vez que Angkor foi abandonada, foi tomada pela natureza.

Embora o povo local estivesse ciente dos monumentos antigos, eles foram cobertos pela selva e ficaram ocultos do resto do mundo até 1860, quando foram "redescobertos" pelo explorador francês Henri Mouhot.

Isso deu início a uma série de grandes projetos de restauração que continuam até hoje.

Nas últimas duas décadas, o Camboja registrou um grande aumento no número de turistas que se aglomeram no Parque Arqueológico de Angkor Wat para ficar à sombra dos templos Angkor Wat, Ta Prohm e Bayon. Em 2019, 2,2 milhões de pessoas visitaram o local.

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Abandonada no século 15, Angkor só foi 'redescoberta' na década de 1860

O surgimento de hotéis, restaurantes e turistas colocou uma forte pressão sobre a demanda por água, causando uma drástica escassez.

Como os templos dependem de um suprimento constante de água subterrânea para permanecer de pé, isso gerou preocupação com a preservação do sítio arqueológico listado como patrimônio mundial pela Unesco.

O aumento na demanda por água, juntamente a severas inundações de monções de 2009 a 2011, levou a uma ampla restauração do antigo sistema hídrico.

Socheata Heng, dona de uma pousada nos arredores de Siem Reap, lembra das enchentes de 2011 — a pior da província em 50 anos.

"Causou muitos estragos", diz ela.

"Plantações foram destruídas, comunidades tiveram que ser retiradas de suas casas, e a água entrou na minha pousada. Foi devastador."

Liderado pela Autoridade Nacional APSARA, responsável pela proteção do Parque Arqueológico de Angkor, o projeto de restauração renovou muitos dos barays e vias fluviais do sistema hidráulico, incluindo o fosso de 12 km de Angkor Thom, o West Baray e a bacia real do século 10, Srah Srang.

Estes esforços ajudaram a combater a escassez de água provocada pelo forte aumento de turistas e também a prevenir as graves inundações sofridas em toda a província entre 2009 e 2011.

Isso significa que hoje, o vasto sistema que remonta a séculos continua a matar a sede de Siem Reap, fornecendo um abastecimento constante de água, evitando inundações devastadoras e oferecendo as fundações que manterão os templos sagrados de Angkor estáveis no futuro.

"A renovação dos barays e dos sistemas hídricos fornecem água para irrigação, então eles se tornaram parte da paisagem agrária de hoje, ao mesmo tempo que ajudam a estabilizar os templos", diz Evans.

"É realmente incrível que este sistema de gerenciamento de recursos hídricos ainda esteja a serviço de Siem Reap."

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.




O sedutor mito das ruínas das cidades perdidas

 Jen Rose Smith

BBC Travel 

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Após a erupção do Monte Vesúvio, os moradores de Pompeia

 começaram imediatamente a reconstruir suas vidas nas proximidades

O sol do fim de tarde projetava sombras sobre as centenas de faces de pedra esculpidas no Templo de Bayon, enquanto eu me embrenhava pelo santuário do século 12 no coração do sítio arqueológico de Angkor no Camboja.

Os rostos psicodélicos despontavam de torres e paredes, todos com lábios carnudos esboçando um sorriso desconcertante.

Era meu primeiro dia em Angkor, e eu sabia pouco sobre a história da cidade na época. Mas perambulando de templo em templo, me deixei facilmente levar pelos devaneios da minha imaginação.

Na minha mente, multidões de devotos carregavam oferendas brilhantes. Os cinzéis ecoavam enquanto os artesãos criavam as obras-primas primorosas ao meu redor, enquanto reis grandiosos desfilavam por largas avenidas repletas de estátuas.

"Justamente porque um lugar não existe mais, ele pode ser transformado na cidade ideal, na cidade dos sonhos de alguém", escreveu Aude de Tocqueville em seu livro Atlas of Lost Cities: A Travel Guide to Abandoned and Forsaken Destination ("Atlas das cidades perdidas: um guia de viagem para destinos abandonados e esquecidos", em tradução livre), publicado em 2014.

"A cidade perdida é, portanto, poesia, mundo de sonho e cenário para nossas paixões e meandros."

De fato, lugares perdidos e abandonados exercem uma forte atração sobre a imaginação. São uma isca para viajantes ávidos, inspirando um senso de aventura que alimenta grandes expedições e lendas.

Vemos nossas vidas refletidas nas pedras, imaginamos nossos dramas íntimos perante seus cenários românticos e em ruínas. E se uma mortalha de desastres paira sobre muitas cidades perdidas, até mesmo isso é amenizado com o passar do tempo.

"Por provavelmente milhares de anos, as pessoas têm contado histórias de aventura sobre terras dramáticas além de nossas fronteiras — histórias sobre civilizações antigas", diz Annalee Newitz, autora de Four Lost Cities: A Secret History of the Urban Age ("Quatro cidades perdidas: uma história secreta da era urbana", em tradução livre).

A obra percorre continentes e milênios, apresentando quatro sítios arqueológicos como exemplos práticos de vida urbana: Angkor, no Camboja; a cosmópolenativo-americana de Cahokia; a cidade romana de Pompeia; e a neolítica Çatalhöyük, na Turquia moderna.

Enquanto histórias sobre cidades perdidas se tornam contos de viagem atraentes, Newitz argumenta que essas narrativas muitas vezes ocultam as histórias reais por trás dos lugares mais magníficos da humanidade.

Isso aconteceu em Angkor, onde passei tardes ensolaradas em meio às ruínas.

Newitz explica que a cidade era habitada quando o explorador francês Henri Mouhot chegou lá em 1860 — na verdade, nunca havia sido totalmente abandonada —, mas o visitante não poderia imaginar que antepassados cambojanos fossem capazes de tamanha grandeza.

"À primeira vista, ficamos repletos de uma profunda admiração, e não podemos deixar de perguntar o que aconteceu com essa raça poderosa, tão civilizada, tão iluminada, responsável por essas obras gigantescas", escreveu Mouhot.

Ele especulou que Angkor havia sido construída por antigos gregos ou egípcios. Na França, explica Newitz, sua visita foi aclamada como uma "descoberta".

"As histórias de cidades perdidas se tornaram tão populares na era moderna — a partir do século 19 ou 18 — porque eram realmente uma boa maneira de disfarçar o colonialismo", explica Newitz. 

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O Templo de Bayon é um santuário do século 12 no 

coração do sítio arqueológico de Angkor, no Camboja

"Isso permite que você justifique todos os tipos de incursões coloniais. Dizer 'esta não é uma civilização que está indo bem por conta própria. E a evidência que vemos disso é que eles se afastaram de um grande e misterioso passado perdido.' "

Encontrar cidades e civilizações perdidas era uma obsessão para alguns exploradores e colonizadores europeus.

Esse frenesi foi alimentado, em parte, pela busca pela cidade perdida mais famosa da história: Atlântida, que apareceu pela primeira vez nos escritos de Platão.

Sua Atlântida fictícia prosperou antes que o declínio moral trouxesse o castigo divino.

Os contemporâneos do filósofo teriam reconhecido a história como uma alegoria, diz o historiador Greg Woolf, autor do livro The Life and Death of Ancient Cities: A Natural History ("A vida e a morte das cidades antigas: uma história natural", em tradução livre).

"Contar um mito para ilustrar uma verdade maior era amplamente compreendido", acrescenta Woolf.

"Não acho que alguém tenha acreditado seriamente que [Atlântida] existia, mas era um mito conveniente."

No entanto, quando os textos de Platão sobre Atlântida foram distribuídos em traduções modernas, encontraram um público mais crédulo.

"As pessoas estavam lendo isso exatamente ao mesmo tempo que fundavam colônias no Novo Mundo", explicou Edith Hall, especialista em clássicos, em entrevista recente ao podcast History Extra, da BBC.

Interpretando mal o trabalho de Platão, muitos leram o conto alegórico de forma literal, disse ela.

"Eles ficaram impressionados. Todo mundo disse que (Atlântida) tinha que estar na América."

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As narrativas modernas muitas vezes escondem as histórias

 reais por trás dos lugares mais magníficos da humanidade

Quando esses colonizadores europeus encontraram civilizações nativas, escreve Newitz, eles lutaram por conexões com um passado misterioso, muitas vezes ignorando convenientemente povos contemporâneos bastante reais.

Foi o que aconteceu em Cahokia, uma antiga metrópole localizada perto da atual cidade americana de St Louis.

Os imponentes montes de terra presentes ali rivalizavam com as pirâmides egípcias em altura, e no auge de Cahokia em 1050 d.C., a cidade era maior do que Paris. Os recém-chegados europeus tiveram dificuldade de aceitar isso.

"Viajantes e aventureiros contavam a si mesmos todos os tipos de histórias malucas, como se os antigos egípcios tivessem vindo aqui para construir", diz Newitz.

Foi um mito que serviu para justificar o roubo de terras indígenas amplamente descritas como "vazias". Enquanto isso, assim como em Angkor, os descendentes dos construtores de Cahokia foram desprezados como sendo incapazes de realizar tais projetos.

Contos de cidades perdidas também podem esconder outras verdades, escreve Newitz, como a maneira como os povos antigos se reinventavam quando deixavam um lugar para trás.

O desastre e o colapso são muitas vezes apresentados como o fim da história, mas em Pompeia e Çatalhöyük, Newitz enxerga o vislumbre de um novo começo em meio à agitação social.

Depois que a erupção vulcânica transformou Pompeia em um cemitério, em 79 d.C., os pompeianos traumatizados começaram imediatamente a reconstruir suas vidas nas proximidades de Nápoles e Cumas.

Citando o trabalho do especialista em clássicos Steven Tuck, Newitz relata que muitos refugiados conhecidos pelos historiadores tinham nomes que os marcavam como liberti, escravos libertos.

Enquanto as convenções romanas para nomes costumavam ser conservadoras, mantendo os mesmos nomes geração após geração, Tuck observou um padrão interessante entre as famílias de refugiados de Pompeia.

Deixando para trás seus antigos nomes liberti, alguns optaram por chamar seus filhos pelos nomes dos lugares onde chegavam, como a movimentada cidade portuária de Puteoli.

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Em 1050 d.C., Cahokia era maior do que Paris

Lá, algumas famílias recém-chegadas deram aos filhos o nome de Puteolanus.

É como se mudar de um campo de refugiados para Londres e chamar seu filho de "Londrino", Tuck me explicou por e-mail.

"A realocação deu a eles essa oportunidade e eles a aproveitaram."

E nas próprias cidades em declínio, Newitz apresenta uma comunidade vívida, e não povos antigos presos ao capricho da história.

É o que ela vê nas ruínas de Çatalhöyük, um assentamento neolítico que prosperou há 9 mil anos na planície de Konya, no centro da atual Turquia.

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Uma erupção vulcânica transformou Pompeia em um cemitério em 79 d.C.

As casas ali eram construídas uma ao lado da outra como as células de um favo de mel, diz ela no livro.

Nas noites quentes, os moradores se reuniam nos telhados, fazendo refeições e artesanato juntos. Mas, apesar de toda efervescência criativa da vida na cidade, nem tudo eram flores.

Com o tempo, ficou mais difícil permanecer em Çatalhöyük: o clima se tornou menos favorável e as tensões sociais aumentaram.

Embora muitas histórias sobre cidades perdidas pareçam confusas e míticas, Newitz retrata o abandono de lugares como Çatalhöyük como resultado de um processo bem fundamentado.

Com o tempo, o povo de Çatalhöyük simplesmente optou por voltar para áreas mais rurais, um processo familiar para qualquer morador de cidade grande hoje que melancolicamente passa os olhos pelos anúncios de imóveis que evocam a vida no campo.

"Vamos procurar um lugar melhor e tentar de novo, tentar uma nova experiência, tentar construir de forma diferente, tentar viver de maneira diferente", afirma Newitz, sugerindo conversas que podem ter ocorrido nos lares neolíticos.

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Çatalhöyük é um assentamento neolítico que prosperou 9 mil anos atrás

As famílias partiram uma a uma, até que finalmente Çatalhöyük ficou vazia.

Mas quando os habitantes foram embora, cada um levou consigo o que considerava mais importante. Assim, suas artes, ideias e cultura material se irradiaram pela planície de Konya à medida que famílias construíam uma nova vida longe do denso povoado.

Embora Cahokia e muitas outras cidades possam estar abandonadas, de certa forma, elas não estão perdidas de maneira alguma para nós.

"Ainda temos todas essas memórias culturais de onde estivemos", diz Newitz.

"É a continuação de todo o caminho."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.